sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O bispo e o holocausto

O Bispo Manuel Linda comparou a actual crise dos refugiados ao Holocausto.
Muita gente gosta de comparar tudo que vai acontecendo um pouco por esse mundo fora com o Holocausto. Os padres gostam particularmente de abusar desta comparação.
Como não poderia deixar de o ser, mais uma vez, um bispo da Igreja Católica comparou a tragédia dos migrantes que procuram entrar na Europa com o Holocausto.
"O Mediterrâneo é a vala comum, onde se sepultam os transportados nas obsoletas carretas funerárias. Foi assim nas duas guerras mundiais, foi assim em Auschwitz e parece ser assim em tantos dramas do presente" (ver)
Realmente, as pessoas que vêm de África, da Ásia ou da Europa (do Kosovo) procurar uma vida nova no Norte da Europa, uma vida de mais conforto, sofrem muito, morrendo mesmo cerca de 1% das que o tentam. 
Mas o Holocausto fui um crime de tal dimensão, que ninguém o pode comparar seja com o que for porque se trata da página mais negra da história da humanidade.
As pessoas da Igreja Católica fazem esta comparação porque, no fundo e historicamente, a Igreja Católica sempre foi, é e será anti-judeus. Digamos que argumentam que "foram os judeus que mataram Jesus o Cristo."
Mas o argumento seria igual a matarem os portugueses actuais porque, nos séculos XV e XVI outros portugueses caçaram em África homens livres que venderam como escravos.
Para verem a magnitude do que foi o holocausto, vou apenas relatar um pequeno episódio.

Fig. 1 - O Holocausto foi terrível, incomparável a tudo o que existe hoje.

O extermínio dos judeus Húngaros.
Em 1941 havia 725 mil judeus na Hungria mais cerca de 100 mil outras pessoas que eram cristãos mas que, mesmo assim, foram classificadas como "etnicamente judeus".
Entre 1938 e 1994 vivam com muitas dificuldades mas as mortes eram esporádicas excepto no caso dos 42 mil trabalhadores forçados que morreram na Frente Leste nos anos de 1942-43. 
Em Março de 1944 os Nazis invadem a Hungria e decidem acabar com todos os judeus que restam. 
No dia 14 de Maio começa o transporte de 12 mil judeus por dia para Auschwitz onde já tudo estava preparado para os receber. 
O comboio tinha 45 carruagens de transporte de animais. As pessoas eram metidas como sardinhas em lata, cerca de 70 em cada carruagem que não teria mais que 2,2 metros por 12 metros. Assim, cada comboio transportava cerca de 3000 pessoas.
A maldade ia ao ponto de, durante a viagem, as pessoas não poderem beber porque, desidratadas, ardiam melhor.

Quando o comboio chegava a Auschwitz 
As portas de correr das carruagens abriam-se, por serem próprias para animais, as pessoas precisavam  descer uma altura de um metro que, ajudadas umas pelas outras, lá iam descendo com os soldados nazis sempre a gritar schenell, schenell, schenell.
Aquelas 3000 pessoas enchiam a gare, agarradas a um pequeno embrulho que continha tudo o que restava das suas vidas. Depois, normalmente como cordeiros mas, se necessário, à bastonada, as pessoas eram encaminhadas  para o fundo da gare onde era feita a triagem. Um oficial escolhia algumas pessoa (mais capazes de trabalhar) para um lado e as restantes para o caminho da "desinfecção". Todas as crianças e pessoas mais velhas eram encaminhadas obrigatoriamente por aqui.
No caso dos húngaros, como era uma operação urgente, poucos eram os seleccionados para os trabalhos forçados.
Nas carruagens ainda ficavam dezenas de pessoas porque tinham morrido durante a viagem de sede ou asfixiadas. Chegava a brigada de limpeza e retirava os cadáveres para carroças. 

Fig. 2 - Os oficiais nazis fotografavam as pessoas para meter nos registos do "trabalho efectuado". Estas mulheres e crianças húngaras chegaram e foram imediatamente para o "Templo".

A caminho do extermínio.
Quem era seleccionado para trabalhar, entrava na porta principal do campo onde dizia "O trabalho liberta".
Os outros, seguiam por um caminho que tinha 6 metros de largura, ladeado por muros com 6 metros de altura.Uns metros à frente, as pessoas eram obrigadas a despirem-se "porque a roupa, estando cheia de piolhos e doenças, tinha que ser desinfectada."
Depois de despidas, continuavam a caminhar uns 100 metros onde o caminho fazia em ângulo de 90.º à direita. Neste momento, aparecia de frente o "Templo", uma fachada larga, com duas portas centrais, talvez com 10 metros, encimadas por uma grande Estrela de David amarela.
"Agora vão rezar no Templo enquanto desinfectamos as roupas" diziam os guardas que iam empurrando as pessoas para dentro do "Templo".
Àquelas 3000 pessoas descarregadas do último comboio juntavam-se mais umas 1000 "do serviço regular", pessoas que chegavam noutros comboios (de outras origens) ou outras que, tendo sido escolhidas semanas antes para trabalho forçado, "já estavam cansadas". 
Entravam todas no "Templo" que, porque não tinha mais de 500 m2 de área total, obrigava a que as pessoas ficassem como a sardinha na lata, carne contra carne. 
O "Templo" não tinha qualquer janelas e ao fundo tinha um altar com duas tábuas que tinham escritos os números romanos I a V e VI a X para, tal como se via nas sinagogas, lembrar os 10 Mandamentos da Lei de Deus.

Fig 3 - A ideia era acalmar as pessoas pois só havia 100 guardas para controlar as mais de 4000 pessoas que iam ser exterminadas.

Assim que estavam todas dentro.
Fechavam as portas bem fechadas, com trancas por fora.
Depois, por uma conduta, desviavam para o "Templo" os gases de exaustão do gerador eléctrico. 
As pessoas, sentindo-se a asfixiar pelo fumo, começavam a gritar, crianças a chorar, ouviam-se pedidos de socorro a Deus e aos homens, em Alemão, Húngaro e Polaco mas, cá de fora, ninguém respondia. Estavam os guardas a fumar um cigarro, beber uma cerveja ou a jogar uma partida de cartas à espera que a "reza" acabasse.
Os gritos iam diminuindo de intensidade e, decorridos 15 minutos, já quase não se ouvia nada, só uma espécie de miar longínquo como o que se ouve durante as noites de Fevereiro. 
Ao fim de 20 minutos, o silêncio era total.
"Parece que já estão a dormir" e cortavam os gases do gerador.

Abriam as portas.
Como as pessoas estavam à lota, carne com carne, muitos dos mortos continuavam de pé, com as cabeças caídas.
Depois de uns minutos para que entrasse ar, as brigadas de limpeza começavam a trabalhar.
Estas brigadas eram formadas por prisioneiros seleccionados para trabalhar. Os seus membros eram relativamente bem tratados e tinham a garantia de que não seria asfixiado no "Templo". É que meter uma pessoa dessas (que sabia o que leh ia acontecer) no meio das outras todas poderia sublevar a multidão. 

Fig. 4 - Os das limpezas, num momento de distracção, eram executados com um tiro de Mauser C96 atrás da orelha.

A limpeza.
A brigada de limpeza era composta por algumas centenas de pessoas para que a operação fosse rápida. Umas pessoas entravam na sala, metiam os cadáveres em carroças que traziam cá para fora. Outras pessoas empurravam as carroças até aos fornos crematórios. Finalmente, outras pessoas empilhavam as pessoas nos fornos.
Os guardas estavam especialmente atentos quando vinham novos elementos para a limpeza. Se gritassem, se  se recusassem a fazer o serviço ou se mostrassem apenas alguma repulsa pelo que viam, pumba, levavam logo um tiro de Mauser atrás da orelha e seguiam na carroça.
As carroças iam cheias e voltavam vazias até que o "Templo" ficava vazio.
Depois, porque muitas pessoas se tinham borrado e vomitado enquanto morriam, era preciso limpar tudo  meticulosamente para que, dai a poucas horas, o comboio seguinte pudesse ser processado sem sobressaltos.
Não havia tempo a perder porque, a cada 4 horas, chegava novo comboio com mais 3000 pessoas para "tratar".

O balanço energético.
Um quilograma de pessoa tem 700g de água e 300g de matéria sólida (proteínas, gorduras e ossos). 
Para aquecer e evaporar os 700g de a água a 200ºC são precisas 600KCal mas a matéria sólida, se for queimada, liberta quatro vezes mais energia,  cerca de 2500KCal.
Então, desde que os fornos sejam eficientes, os corpos contêm energia suficiente para serem incinerados sem necessidade de ser usado combustível.

Os negacionistas 
(Ponto acrescentado no dia 20 Ag).
Estive a confirmar num sitio que apresenta as propriedade termodinâmicas dos fluidos. ver, e elevar a temperatura de 700g de água entre os 0,1º C e os 300ºC precisa de 515 kcal e um kg de carne com osso contém 2250 Kcal.
Há quem diga que não foram executadas mais de 15 milhões de pessoas nos campos de estermínio nazis (40% dos quais eram judeus) porque, sendo precisas 30 mil kcal para desidratar um corpo com 60kg de peso a 300.º C , seriam precisos 3,5 litros de queroséne por pessoa, 50 mil toneladas de querosene no total o que, declaradamente, não foram fornecidas aos campos de extermínio nazis.
Mas, como mostrei com o saldo energético, a carne e gordura do corpo de 60 kg continha 135 mil kcal de energia, 4 vezes a energia necessária para incinerar a corpo pelo que, usando fornos com razoável eficiência energética, a incineração dos corpos não precisava do uso de qualquer forma exterior de energia.

Os fornos crematórios.
Para poupar combustível, os fornos estavam em constante laboração. 
Eram feitos de tijolo refractário, 2 metros de largura, 10 metros de comprimento e 6 metros altura fazendo um volume total de 120 m3 onde cabiam 1000 cadáveres amontoados.
Assim que vinham as carroças com os cadáveres frescos, os fornos ainda estavam meios cheios com os cadáveres já "cozinhados" da anterior "fornada". Nessa altura, fechavam a entrada de ar que o forno tinha em baixo (para deixar de sair fumo), tiravam as placas que tapavam a parte superior do forno e começavam a despejar os corpos frescos até o forno ficar cheio até cima. Como em cada forno cabiam 500 corpos frescos, era preciso encher 8 fornos.
Havia o cuidado de cruzar os corpos para que o ar pudesse circulação.
Depois de bem cheio, o forno tornava a ser tapado com as placas, a entrada de ar era reaberta e recomeçava a injecção de um pouco de querosene para acelerar o processo de queima.
Os 500 corpos frescos iam sendo "cozinhado" e desidratados lentamente pelo calor dos corpos da fornada anterior que, mais abaixo, ardiam por já estarem "cozinhados" e desidratados.
Como a queima era a baixa temperatura para poupar combustível, pela chaminé saia um fumo muito negro, carregado de gordura que pousava em todas as superfícies do campo deixando uma camada de gordura que mais parecia crude. Além disso, o fumo empestava o ar com cheiro a carne e cabelo queimados.

Será possível comparar isto com seja o que for?
Em cerca de 40 dias,  chegaram a Auschwitz 147 comboios com 437402 judeus húngaros que foram imediatamente "processados" e dos quais apenas sobraram umas toneladas de fosfato de cálcio e algumas fotografias para fazer prova junto dos superiores de que o "serviço tinha sido feito."

Fig. 5 - Sr. Bispo Manuel Linda, nada, mas mesmo nada neste Mundo, pode ser comparado com o Holocausto.

Mas ninguém se indignou.
Não ouvi ninguém indignar-se porque somos um povo antisemita.
"Fazer judiarias" ainda está no nosso léxico como fazer maldades.
"Tu és como um judeu" é um insulto que ainda se ouve muito.
Só assim compreendo que ninguém tenha dito nada.

Pedro Cosme Vieira

1 comentários:

Portuendes disse...

Infelizmente, extermínios houve muitos na História da espécie humana e tornar incomparável o Holocausto pode minimizar todos os outros, passados e, eventualmente, futuros. Não é tema fácil de comparar, ainda menos por mim que não sou perito em História, mas se nos atermos aos números poderia encontrar exemplos tão maus ou piores (ver wikipedia genocídio), ou ainda como o extermínio quase total dos indíos que, julgo, atingiram 200 milhões (!). Como disse, apesar de o ter feito, não queria entrar em comparações, porque neste caso, corre-se sempre o perigo de redimensionar alguns...

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