quarta-feira, 5 de agosto de 2015

27 - A lista

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (26 - a selecção)    


27 – A lista
No dia seguinte as horas foram passando e as candidaturas acabaram por estar todas processadas excepto uma que, por estar incompleta, ficou para o fim. Era de um homem, António Espírito Santo, com bastante mais idade que o pretendido, 41 anos, e que, apesar de ter concluído a escola com 19 valores e de ter 10 filhos, não ficava dentro dos 30 casais melhor classificados. Além disse, acrescentava o problema de a candidatura estar incompleta, não tinha o nome nem os dados da mulher, provavelmente porque se teria esquecido ou porque já era viúvo mas também não valeria a pena pois a idade não permitiria que seguisse viagem.
O Sr. Dessilva seriou os candidatos e escreveu no cimo de uma folha “SELECCIONADOS” seguido pela listas dos nomes dos 30 casais com melhor scoring. Cada linha começava pelo um número de ordem que ia de 1 a 30 seguido pelo nome do homem, nota da escola e idade médias do casal, número de filhos e, finalmente, o scoring calculado.
Noutra folha escreveu “SUPLENTES” e escreveu o nome de mais 60 casais, os que se seguiam no scoring dos seleccionados, e que “ficariam como suplentes para o caso de algum dos seleccionados desistir, não conseguir seguir viagem ou, quem sabe, no futuro haver nova possibilidade de seguir viagem”. Nestas pessoas, os números das linhas começavam em 31 e acabavam em 90. A ser classificado, o António ficaria nesta lista.
Fez depois 4 cópias das duas listas a que acrescentou no final “Pessoas ir na adra da igreja domingo às 15h para falar de escola do inglês” e guardou as listas originais no armário que havia no quarto e onde já estavam as candidaturas. Já era noite fechada e o Sr. Dessilva já estava com o pijama vestido mas, mesmo assim, decidiu ir à cozinha falar com a D. Celeste que ainda estava a arrumar as coisas. A menina Dulcinha e o Sr. costa já dormiam pelo que desceu com cuidado a escada estreita que, mesmo assim, rangeu qualquer coisa.
– Sr.a Celeste, estar a ouvir? Eu já ter lista pronta, amanhã senhora arranjar alguém para publicitar os listas?
– Amanhã? Eu arranjo já quem espalhe a notícia. As pessoas estão a ferver pelo que não podemos guardar isso só para nós – disse a Sr.a Celeste enquanto limpava as mãos ao avental que ia tirando – O Sr. Dessilva dê-me cá a lista que eu arranjo já alguém que passe essa informação pelas pessoas, arranjo já quem vá de casa a casa a dar as novidades.
– E Sr.a celeste não acha ser muito tarde?
– Nestas coisas não há tarde nem há cedo, todo tempo é o tempo certo.
A Sr.a Celeste pegou na cópias e saiu para a rua, bateu à porta de uns vizinhos e arranjou logo pessoas para irem, de porta em porta, a dar as novidades.
Nessa noite já todas as pessoas que foram seleccionadas ficaram a saber na notícia e as outras, naturalmente, ficaram desanimadas.
Essa noite, por estar cansado, o Sr. Dessilva dormiu como se estivesse morto e no dia seguinte levantou-se já tinham tocado 10 horas na torre da igreja. Preparou-se e foi até à cozinha comer qualquer coisa e ver a Sr. Celeste na preparação do almoço.
– O Sr. Dessilva devia comer na sala, aqui vai ficar com essa roupa branca cheia de fumo ...
– Mim não preocupar que Celeste lavar bem.
– O Sr. Dessilva é uma pessoa muito engraçada. E chegou mesmo a ver as candidaturas todas? Teve cabeça para ver aquilo tudo?
– Sim, sim, ver todas, não deixar nenhuma. Bem, deixei uma sem ver, de um que se chama qualquer coisa Espírito Santo, não valer a pena ver porque não dizer mulher. Sr. Celeste conhecer?
– O Espírito Santo? Não se chama António? É o açougueiro.
– Sim, sim, agora Celeste falar, eu me lembrar ser nome António. Não saber porque não ter mulher em candidatura, Sr.a Celeste conhecer?
– Ah Sr. Dessilva, eu sei muito bem quem é o António, é ele que mata os animais e os desmancha, ele não escreveu o nome da mulher porque está doente, está muito doente. Esse António é muito boa pessoa, muito temente aos Mandamentos de Deus, imagine só que teve 16 filhos, mais ainda que os 12 que o Padre Augusto obriga para que possamos ir para o Céu.
– Mas ele dizer na candidatura ter 10 filhos!
– Sim, sim, teve 16 mas morreram 6, alguns com a doença e outros com tifo. O filho mais velho já é casado e trabalha com ele no açougue, ainda o vai ajudando a governar a casa.
– António não ter scoring por não ter mulher e também ter muitos anos. Mesmo que tivesse scoring, sem mulher não poder ir no América.
– É pena porque esse António merecia pelo que já sofreu, é uma pessoa que nasceu para abrigo da desgraça. O Sr. Dessilva lembra-se daquele Abel, aquele pastor que há muitos anos morreu no monte e que era amigo do Sr. Jonas? Aquele Abel, o tal que os do Vale mataram há mais de 40 anos para lhe roubarem o gado?
– Sim, sim, lembrar, Sr.a Isabel me contar e sim, Jonas ser amigo de Abel.
– Mas o Jonas também era muito amigo de um outro que se chamava Alberto e que também morreu nesse dia, eu até penso que já ouvi o Sr. Dessilva a falar desse Alberto, esses dois eram mesmo muito amigos, andavam sempre juntos aqui e, azar do destino, encontraram a morte juntos.
– Sim, eu falar em Alberto mas já não saber quem ser. E que ter António a ver com o Abel ou com o Alberto?
– Acontece que o António é filho desse Alberto.
O Dessilva estremeceu, ficou branco e sentiu que o seu coração ia parar.
– Alberto ter filho? Mim não saber, Jonas não saber!
– Bem, o Sr. Dessilva não sendo daqui não tem obrigação de saber nada disso. Mas vamos ao que interessa da história do António, o pai dele, o tal Alberto, morreu no mesmo ataque em que morreu o Abel e morreu sem saber que ia ter um filho. É que a própria mãe da criança só soube que estava grávida dias depois de o Alberto ter morrido. Aquela mulher foi vítima de uma dupla tragédia, um dia ficou viuvá e, passado uns meses, teve uma criança para sustentar sem ter quem a pudesse ajudar. Por não ter pai vivo no dia do nascimento é que o nome dele ficou Espírito Santo, é uma tradição daqui.
– Realmente, ser desgraça muito grande.
– Deve imaginar que essa criança o mais certo é que tivesse morrido de fome mas quis Deus que escapasse, teve uma vida muito difícil mas, pedindo um bocado de pão, de leite ou de queijo um pouco pela aldeia, lá foi conseguindo sobreviver tendo dado um homem trabalhador, sério e respeitador dos homens e de Deus.
– E esse António ter mulher doente como?
– Sim, sim a mulher está muito doente. Agora que a vida do António estava a começar a encaminhar, , foi apanhada pela tuberculose. É uma enorme tragédia porque, se o António tem esse filho mais velho que já casou e duas filhas já crescidinhas, ainda tem 7 filhos pequenos, o mais novo com menos de um ano. É uma tragédia, agora sem a ajuda da mulher ele não tem como dar a volta à vida. O mais certo é que metade dos pequeninos acabe por morrer.
– Não imaginar esse problema. Eu tenho que falar no António. Eu ir falar na casa dele, sr.a Celeste saber onde morar António?
– Ele agora tanto pode estar no monte a ver gado para comprar como estar no açougue, o Sr. Dessilva vai ter que passar por lá a ver se o encontra. Para chegar ao açougue vai aqui pelo caminho abaixo e, depois, vai ter que perguntar porque o açougue fica já praticamente fora do casario.
– Sim, sim, vou ver António – E saiu porta fora cheio de pressa tendo que recuar já quando estava a uns metros de distancia porque se tinha esquecido do chapéu branco.
Foi caminhando, perguntado informações ás pessoas por quem passava e lá chegou ao açougue. O António tinha uma ovelha dependurada por uma corda, de cabeça para baixo, a berrar  – Méeeee, Méeeee – “Um momento Sr. Dessilva que vou só acabar este serviço”. Pegou numa faca que tinha em cima de um cepo de madeira, passou-lhe o fio pela pedra de afiar e espetou-a na ovelha algures entre a pata esquerda e o pescoço. O animal continuou a berrar mais uns segundos mas apenas pelo desconforto de estar dependurado de cabeça para baixo pois, sendo a faca tão afiada, nem sequer tinha chegado a compreender que aquela pequena picadela tinha traçado que a sua vida estava a chegar ao fim. “A nossa infelicidade vem de sabermos que, um dia vamos morrer, foi o Adão ter comido da Árvore da Sabedoria. Como o bicho não sabe isso, vive feliz até ao último momento, o coitado nem sabe o que lhe está a acontecer” disse o António sem retirar o olhar do animal. Aquele sangue todo correu para um alguidar de barro que seria, depois, cozido “para solidificar e meter na pilha do esterco pois, sendo o sangue a vida, Deus não permite que seja comido”.
O animal, no entretanto, calou-se e morreu. “Agora podemos conversar enquanto o animal fica a escorrer. O Sr. Dessilva deve vir encomendar algum borrego, olhe que eu tenho as melhores carnes que se criam por estes montes.”
– Não António, não ser nada disso, eu acreditar carne ser boa mas querer falar do candidatura.
– Falar da minha candidatura? Já nem me lembrava mais disso pois não tenho esperança de vir a ser um dos escolhidos. Eu sei que já tenho bastante idade e que a minha mulher não pode ir. Mas candidatei-me na mesma à espera de um milagre pois precisava mesmo de ir para a América. Como ontem vi que o meu nome não constava da lista dos seleccionados, já sei que não posso ir, mas já não me importo, já estou convencido de que terá que ser assim.
– Mas António, eu ainda não disse isso, ainda não falei no resultado de candidatura.
– Mas o meu nome não está na lista! Sabe Sr. Dessilva, eu estou com muitas dificuldades em criar as minhas crianças, tenho 7 pequenas a meu cargo e não tenho aqui a minha mulher para me ajudar. Na América, trabalhando muito, penso que poderia dar-lhes o que comer e, quem sabe, um dia, chamá-los para perto de mim. E também poderia ajudar a minha mulher. Mas não podendo ir, não pode ser mais que a vontade de Deus.
– Calma, calma, mas eu querer que o António vá, António tem que ir no América, eu precisar de António.
– E a lista? O meu nome não está lá! Agradeço-lhe ter vindo cá dizer as razões porque não vou mas nem era preciso.
– António não estar a compreender, mesmo não estando na lista, o António vai no América como especial.
O António compreendeu finalmente que ia ter uma oportunidade e caiu de joelhos no chão.
–Sr. Dessilva, isto só pode ser um milagre de Deus. Todos sabem que eu sou muito temente a Deus e cumpridor dos Mandamentos de Deus. Sempre me esforcei, enquanto estudante fui o melhor aluno da escola e fui também monitor empenhado durante 15 anos. Sou muito trabalhador, levanto-me todos os dias com o cantar do galo e só me deito já quando a Lua está alta, sempre a trabalhar. Por isso, não vou deixar o Sr. Dessilva mal. Bem sei que será um grande encargo para o Sr. Dessilva ajudar os meus 7 filhos mais pequenos mas eu estou disponível para pagar mais percentagem, estou disponível a pagar 15% do meu ordenado, o que me diz? Eu não o vou deixar ficar mal.
– Não, não, não pagar mais, não, isto não ser leilão, eu querer só melhores e António é o melhor. Eu precisar de António no América, António filho de Alberto, amigo de Jonas, António ser mais velho, saber negócio, ir tratar das contas, ir pagar despesas da casa, vai fazer com que todos pessoa cumpram o contrato, resolver problemas. Se António prometer ir ser chefe, tratar de contas e resolver problema ter pessoas da aldeia no América, António poder ir. Querer ir?
– Sim, sim, Sr. Dessilva – e, mantendo-se ainda ajoelhado, as lágrimas vieram-lhe aos olhos – quero ir e prometo que serei exemplar, vou trabalhar sem parar, vou tratar das contas das pessoas, vou pagar as despesas, vou garantir que todos vamos trabalhar e que nos vamos comportar como o Sr. Jonas achar melhor. Vou tratar de tudo até porque, como já disse, tenho muitos anos de experiência de negócio. Prometo que não se vai arrepender de me levar para a América. Todos os dias hei-de rezar pelo Sr. Dessiva e pelo Sr. Jonas que não conheço mas que só pode ser boa pessoa. O Sr. Dessilva não pode ser mais que um anjo enviado por Deus à Terra.
– Deixar isso, estar combinado que António vai no América – esticou-lhe a mão que apertaram – É muito importante não haver problema porque, vou dizer este segredo, se tudo correr bem, mais pessoa poder no futuro ter carta de chamada. Se houver problema, pessoas não mais poder ir no América. Não poder haver problema com pessoas que vão e António vai tratar de tudo.
Enquanto segurava com as duas mãos a mão direita do Dessilva, o António baixou a cabeça em sinal de agradecimento e submissão “Muito obrigado, Deus há-de recompensá-lo no futuro mil vezes pelo bem que me está agora a fazer, muito obrigado”.

– Dessilva ficar contente mas, antes do futuro, eu precisar que Deus me perdoar pecados do passado. 

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