domingo, 16 de agosto de 2015

30 - A facada

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
______________________

Ver o capítulo anterior (29 - A hora)    



30 – A facada
Como era a véspera da partida, era grande azáfama em toda a aldeia. Preparar os mantimentos, arrear os burros, despedir dos familiares que ficavam. O Dessilva também andou toda a manhã atarefado mas, depois do almoço, decidiu ir visitar a Júlia. Estava sol mas frio, como era normal no Inverno, com os telhados e os campos cobertos de uma camada fina de neve, um cheiro intenso mas agradável a fumo que saia pelas frestas das casas. Mas, naquele casaco americano não entrava frio. Lá foi andando no seu vagar como se estivesse a saborear pela última vez aquela paisagem. Quando chegou à casita da Júlia, chamou por ela “Júlia, Júlia, estás ai dentro?”
A porta abriu-se “Estou mesmo aqui, Sr. Dessilva, entre, entre, mas vai ficar cheio de fumo”.
Realmente, dentro da casa, era uma fumarada total. A casita que se reduzia a uma divisão pequena outrora própria para as galinhas, não tinha chaminés, apenas uma telha levantada, pelo que estava completamente cheia de fumo da fogueira que ardia encostada a uma das paredes. “O Sr. Dessilva sente-se neste mocho e mantenha a cabeça baixa para não apanhar tanto fumo”
– Boa tarde Júlia, este fumo tra´z-me à memoria quando era pequeno, estas tardes frias mas solarengas, estas carnes dependuradas a defumar, este cheiro a folhas de loureiro ...
– O Sr. Dessilva só pode estar a gozar-me! Como é que se pode lembrar disso quando nasceu na América? Não me diga que acredita nas reencarnações?
– Tem Razão Júlia, tem razão, estava já a delirar mas, em vez de estarmos aqui fechados a defumar, porque não vamos caminhar um pouco por ai que eu tenho que falar à Júlia uma coisa que tenho aqui guardada, vamos no nosso vagar como quem vai a namorar.
– O sr. Dessilva é uma maroto, quem é que ia agora querer namorar com uma velha como eu? Mas vamos então falar que o Sr. Dessilva é muito bom conversador e lá fora, mesmo com o frio, o tempo está agradável.
– Vamos então. Sabe que eu gostei muito daquela história de não ter acreditado na morte do Abel. Diga-me então porque é que nunca acreditou na sua morte.
– É que há coisas que não batem certo mas, ao fim de uns tempos, acabei por me calar pois vi que ninguém acreditava em mim, chegaram mesmo a dizer que eu estava maluca, cega pelo amor que lhe tinha. Mas vamos aos factos, primeiro, os cães tinham a coleira de espetos pelo que tinham que aparecer, o Abel nunca ia para o monte sem as meter nos cães e eu, nesse mesmo dia, vi que os cães saíram daqui com as coleiras. Depois, nunca apareceu o corpo nem a roupa. Terceiro, eu vi pelas pegadas que as ovelhas foram para o Norte e, exactamente no caminho que seguiram as ovelhas, estava o Alberto morto, com os seus cães a guardá-lo e os lobos não comeram nenhum dos cães do Alberto. Como é que o Sr. Dessilva explica isto? Como é que os cães do Abel desapareceram e os do Alberto ficaram lá a guardar o corpo?
– Realmente, isso não parece bater certo mas eu vou-lhe explicar o que eu penso sobre o que aconteceu. Quando começou o ataque, estavam no monte milhares de ovelhas e mais de cem pastores. O ataque começou ainda o dia mal tinha nascido e, realmente, tinha como objectivo o roubo das ovelhas. Mas, quando os atacantes foram avistados, os pastores fugiram cada um para seu lado com as suas ovelhas pelo que os atacantes só conseguiram cercar aqueles 3 pastores que apareceram mortos na zona do planalto. Depois, apesar de terem conseguido as ovelhas dos desse 3 pastores mais algumas que se tresmalharam dos outros rebanhos, talvez umas 200 ou 250, como não traziam cães nem eram pastores, não conseguiram mais do que matar algumas e fazer com que as outras fugissem pelo monte tresmalhadas uma para cada lado. No final, não conseguiram roubar nenhuma ovelha e foram-se embora de volta ao Vale.
– Mas então, se diz que os do Vale não roubaram as ovelhas, para onde é que foram essas 200 ovelhas? E ainda não explicou como morre o Alberto.
– Calma! O Jonas estava com o Alberto mais acima no monte, talvez uns 5 km acima, e viu tudo o que estava a acontecer. Como estava eu a dizer, como os atacantes não conseguiam juntar as ovelhas, acabaram por desistir e irem-se embora, foi quando foram avistas aqui da aldeia a regressar ao Vale.
– Até aí está tudo bem, realmente, quando voltaram não levavam ovelhas com eles, mas ainda não estou a ver como a história do Abel e do alberto encaixam ai. Se eles se foram embora e o Alberto e o Abel estavam 5km acima bem vivos, porque é que as ovelhas desapareceram, o Abel nunca apareceu e o Alberto apareceu morto?
– Avancemos mais um pouco, o Abel não sabia o que se iria passar pelo que, sendo um homem de coragem, entregou as suas ovelhas à guarda do Alberto, umas 50 ou 60, e disse-lhe “Foge para Norte, leva as ovelhas até ao outro lado do monte e espera lá por mim que eu vou tentar salvar os nossos colegas que estão a ser atacados”. Depois, o Abel chamou os seus 4 cães e correu monte abaixo para tentar socorrer os colegas que tinham sido apanhados mas, quando lá chegou, viu que já estavam mortos. Então, mais não podia fazer do que juntar as ovelhas que andavam extraviadas. Como era um bom pastor e os seus cães estavam bem treinados, mandou correr um por aqui, outro por acolá e conseguiu, ao fim de algum tempo, juntar quase todas as ovelhas que estavam vivas, conseguiu juntar mais de 200. Pensou um minuto e, como os atacantes podiam estar por ali escondidos à espera para o emboscar e o Alberto tinha caminhado para Norte, decidiu levá-las monte acima para se juntar com o Alberto e, assim, passar a noite no monte e voltar apenas no dia seguinte. O combinado era o Alberto parar com as ovelhas uns 10km dali, já do outro lado da cumieira pelo que o Abel começou a guiar as ovelhas para o local combinado para o encontro.
– Sim Sr. Dessilva, até agora concordo que tudo isso poderia ter acontecido mas ainda não compreendo como morreram e as ovelhas desapareceram. Mas, desculpe-me, agora notei que está sem o sotaque americano!
– É que eu aprendo línguas depressa. Morreram ou morreu? Mas afinal acreditas que o Abel escapou ou não?
– Acredito, acredito!
– Voltemos então à história. Então, o Abel caminhou monte acima e quando chegou ao outro lado da cumieira, ao ponto de encontro, já era noite fechada. Teve sorte em ser Verão senão não teria conseguido passar o monte e aguentar a noite lá no cimo, teria morrido congelado. Foi uma noite terrível porque não podiam fazer uma fogueira com medo de que os atacantes ainda estivessem no monte. Os lobos rondavam e atacavam as ovelhas pelo que, tiveram que lutar, juntamente com os cães, toda a noite contra as feras. Quando o dia nasceu estavam exaustos pelo que dormitaram um pouco cobertos com a manta que os pastores transportam sempre enrolada às costas.
– Sr. Dessilva sabe muito sobre os pastores, até sabe que eles levam uma manta às costas. Mas diga-me então como é que o Alberto morreu e o Abel, os cães e as ovelhas desapareceram? Será que os atacantes os viram? Mas como já sabe os atacantes foram vistos a voltar ao Vale logo depois do ataque pelo que, no dia seguinte, já não havia ninguém no monte. Por isso, a sua história não tem pés nem cabeça.
– Ouve então o resto. Realmente, nessa altura já não havia atacantes no monte e as pessoas da aldeia já andavam à procura dos pastores e das ovelhas desaparecidos. Mas, durante a noite, passou um pensamento negro pela cabeça do Abel, quando acordaram, já o Sol ia alto, o Abel disse “Alberto, nós estamos aqui no monte com mais de 300 ovelhas e, se calhar, os meliantes atacaram a aldeia e mataram toda a gente. A única coisa que podemos fazer para que o nosso povo não fique definitivamente perdido é levarmos as ovelhas mais para Norte, vendêrmo-las no mercado da cidade e, daí, seguir com a nossa vida em frente, partirmos para junto do Jonas. Daqui à cidade são uns 60 km, mesmo não podendo fazer o trajecto num dia, para mos na aldeia que existe uns quilómetros aqui à frente, depois, arranjamos alguém que nos a levar as ovelhas até à cidade.”
– O Alberto imediatamente de forma negativa “Não Abel, não podemos fazer isso, temos que voltar à nossa aldeia já pois, mesmo que os nossos tenham sido atacados, nunca terão matado todas as pessoas, haverá sempre feridos que precisam da nossa ajuda. Depois, assim que o Arquiduque souber que fomos atacados na magnitude que estás a imaginar, manda logo as suas tropas em nossa ajuda.”
Esta esperança de que haveria sobreviventes na aldeia não foi capaz de demover o Abel da sua ideia que continuou a insistir “Alberto, deixa-te disso, vamos para a frente com isto, levamos as ovelhas para Norte e vendêmo-las. Depois, eu sei que o Jonas está na Holanda, eu sei a morada dele, pegamos no dinheiro, apanhamos o comboio e vamos ter com ele e, depois, apanhamos todos o barco para a América. O Jonas disse-me numa carta que a América é a terra das oportunidades, que estão a receber as pessoas e que lá é a nova terra prometida, vamos para Nova York, vamos para a frente com isto, anda daí que ficas com metade do dinheiro que conseguirmos com as ovelhas.”
– E, Sr. Dessilva, e depois, o que aconteceu nessa sua história?
– O Abel continuou a insistir, insistir e o Alberto sempre a dizer que não a ponto de dizer “Antes morto do que vendido”. Nisto o Abel aproximou-se dele e disse “Alberto não me faças isso, vamos neste projecto” a que o Alberto tornou a responder “Antes morto do que vendido, tu não prestas.” Neste momento, o Abel agarrou-lhe o casaco pela lapela com a mão esquerda, depois, tirou o facalhão que transportava preso ao cinto na parte das costas e, com um movimento rápido, cravou-o directo ao coração do amigo.
– Não Sr. Dessilva, isso não pode ter acontecido assim, essa sua história é terrível de mais, recuso-me a continuar a ouvir essa hipótese. O Abel era sério, era incapaz de matar o seu melhor amigo, não, isso nunca poderia ter acontecido, nem que fosse um canalha, um desalmado, nunca ninguém mataria um amigo assim.
– Júlia, nunca digas nunca. Diz-me a Júlia, quando encontraste o Alberto, como é que ele tinha sido morto?
– Com uma facada no coração mas o Sr. Dessilva sabe-o porque eu já lho talvez tenha dito.
– Se não achas a minha história verosível, vou então continuar para veres que a verdade pode ser muito dura. O Alberto ainda ficou de pé por uns segundos e disse “O que me fizeste Abel? Parece que me deste uma facada, parece que me mataste.” Nisto o Abel disse “Perdoa-me Alberto, perdoa-me este crime que acabei de cometer mas é para bem do nosso povo, eu hei-de recompensar o nosso povo pela atrocidade que acabei de cometer.”
– “Nunca, este crime nunca terá perdão, não há nada no Mundo que possas fazer para que eu ou alguém te possa perdoar o que acabaste de fazer, este foi um acto de puro egoísmo em que puseste a tua felicidade à frente da minha e de qualquer outra pessoa do nosso povo.” Respondeu o Alberto. Nisto o Alberto caiu, ainda disse “Nunca” mas revirou os olhos e morreu logo a seguir. Então, o Abel pegou nos seus 4 cães e deu início à marcha para Norte. Ainda tentou chamar os cães do Alberto mas eles ficaram junto ao corpo já morto. Não foi fácil levar as 300 ovelhas nos 20km que ainda faltavam para a aldeia, foram feitos devagar porque as ovelhas queriam-se tresmalhar, com os cães sempre a trabalhar, a correr de um lado para o outro. Mas o Abel lá conseguiu chegar com as ovelhas à aldeia antes da noite cair, onde tinha previsto passar a noite. Ficou num curral do estalajadeiro e no dia seguinte contratou uns pastores dessa aldeia que o ajudaram a levar as ovelhas até à cidade. Uma vez lá, vendeu-as por bom dinheiro, por um pouco mais de 25000€.
– Isso não pode ter acontecido. Além do mais, não bate certo, ainda tem que explicar o que aconteceu aos cães do Abel. Onde ficaram os cães? Será que ele também os matou?
– Sim, sim, os cães tiveram o mesmo destino que o Alberto, foram sacrificados para que não houvesse o risco de voltarem à aldeia do Monte.
– Essa dos cães já me parece um remendo que o Sr. Dessilva precisou fazer.
– Não, não, foi mesmo assim que aconteceu. Depois, o Abel pegou no dinheiro e apanhou o comboio para Amesterdão onde se juntou com o Jonas. Nessa altura, o Jonas já era um ourives encartado mas, por ter nascido nesta terra de parolos, não lhe davam a oportunidade de mostrar o seu grande valor. Então, aceitou o desafio do Abel e foram os dois para a América, para Nova York onde, com o dinheiro das ovelhas, abriram a ourivesaria que hoje é um grande sucesso.
– Eu não me acredito em nada disso. Além do mais, sendo o Sr. Dessilva sócio do Jonas, se o Abel estivesse vivo e tivesse ido para a América com o Jonas, o senhor deveria conhecê-lo. O Abel também deveria ser sócio do Jonas e, tanto quanto disse até agora, esse sócio não existe. Ou terá o Jonas outro sócio de que o Sr. Dessilva nunca tenha falado?
– Não, não, Júlia, o Jonas não tem mais sócio nenhum, desde o primeiro momento que a ourivesaria tem apenas dois sócios, eu e o Jonas.
– Então, a sua história não tem qualquer aderência à realidade. Eu posso nunca ter acreditado que o Abel tenha morrido mas a verdade não é essa. Aconteceu alguma coisa, talvez algumas pessoas do Vale tenham levado as ovelhas para Norte e tenha vendido o Abel aos turcos como escravo, mas não é possível que ele tenha roubado as ovelhas e, ainda muito menos, que tenha matado o Alberto. Não me acredito em nada disso. Acredito com toda a convicção que, um dia, o Abel se vai soltar do cativeiro dos turcos e vai voltar à nossa aldeia.
– A Júlia vai já acreditar que tudo o que eu lhe contei foi a verdade, a mais pura das verdades. Agora que chegamos aqui à beira do riacho, olhe este cepo de um carvalho velho que já foi cortado faz talvez 20 anos, repare neste cepo.
– E o que tem este cepo?
– Imagine que o carvalho está aqui, há uns cinquenta anos atrás, imagine uma tarde de muito calor e este ribeiro com um fio de água a correr. Imagine que o Abel está descalço, sentado nesta pedra grande, com os pés mergulhados na água fresca e que a Júlia está encostada ao tronco forte do carvalho. Faça de conta que está encostada a esse carvalho que eu estou a refrescar os meus pés neste mesmo sítio.
– Pronto, Sr. Dessilva, já me estou a imaginar encostada ao carvalho que aqui havia. Vamos lá ver no que isto vai dar. Avance, avance que eu estou com curiosidade.
– Agora imagine-se nessa altura, com 11 ou 12 anos. O Abel roda sobre esta mesma pedra como eu estou a fazer agora, olha para a Júlia, levanta-se e dá-lhe um beijo, o primeiro beijo desse amor que os ligou até hoje. Depois, a Júlia empurrou o Abel e ele caiu aqui, como eu estou a cair. A Júlia desatou a correr por este caminho e o Abel ficou aqui deitado a olhar. Ali abaixo, a Júlia parou e olhou para trás e sorriu. Lembra-se disto, isto aconteceu ou não?
– Mas como o Sr. Dessilva sabe disto, quem lhe contou que isto aconteceu? Só eu e o Abel sabíamos que isso tinha acontecido. Será que alguém estava a ver e, agora, lho contou? Diga, diga, onde soube esta história, deixe de brincar comigo e diga logo onde soube esta história.
– Júlia, calma, calma, eu vou-lhe dizer como o soube mas a Júlia tem que me jurar segredo sepulcral. Jamais pode dizer o que eu lhe vou revelar, nem em confissão, nunca e a ninguém, vai ter que ir para a sepultura com a Júlia. Promete guardar segredo total sobre o que eu lhe vou dizer?
– Guardo, sim, guardo segredo. Toda a minha vida é um segredo pelo que prometo guardar mais esse segredo sepulcral que vem por ai.
– Então olhe para mim, olhe bem, imagine como eu seria há uns 40 anos atrás no dia em que o Abel morreu no monte, olhe bem – fez-se silêncio durante um minuto, dois minutos, três minutos .
– Não, não pode ser, é impossível, meu Deus, diga-me que não é verdade o que eu estou a imaginar, diga-me que eu estou apenas a ter um pesadelo.
– Sim, sim, pode ser e é verdade, o Abel libertou-se do cativeiro e voltou à nossa aldeia, o Abel sou eu.
Os olhos da Júlia encheram-se imediatamente de lágrimas. Ainda disse “Não pode ser, o Sr. Dessilva ser o Abel, não pode ser um ladrão, um assassino que matou o seu maior amigo” para logo perder os sentidos. O Sr. Dessilva deitou, com carinho, a Júlia de lado e, vendo que respirava normalmente e que estava quase a vir de volta a si,  afastou-se.

Próximo capítulo (31 - A partida)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O bispo e o holocausto

O Bispo Manuel Linda comparou a actual crise dos refugiados ao Holocausto.
Muita gente gosta de comparar tudo que vai acontecendo um pouco por esse mundo fora com o Holocausto. Os padres gostam particularmente de abusar desta comparação.
Como não poderia deixar de o ser, mais uma vez, um bispo da Igreja Católica comparou a tragédia dos migrantes que procuram entrar na Europa com o Holocausto.
"O Mediterrâneo é a vala comum, onde se sepultam os transportados nas obsoletas carretas funerárias. Foi assim nas duas guerras mundiais, foi assim em Auschwitz e parece ser assim em tantos dramas do presente" (ver)
Realmente, as pessoas que vêm de África, da Ásia ou da Europa (do Kosovo) procurar uma vida nova no Norte da Europa, uma vida de mais conforto, sofrem muito, morrendo mesmo cerca de 1% das que o tentam. 
Mas o Holocausto fui um crime de tal dimensão, que ninguém o pode comparar seja com o que for porque se trata da página mais negra da história da humanidade.
As pessoas da Igreja Católica fazem esta comparação porque, no fundo e historicamente, a Igreja Católica sempre foi, é e será anti-judeus. Digamos que argumentam que "foram os judeus que mataram Jesus o Cristo."
Mas o argumento seria igual a matarem os portugueses actuais porque, nos séculos XV e XVI outros portugueses caçaram em África homens livres que venderam como escravos.
Para verem a magnitude do que foi o holocausto, vou apenas relatar um pequeno episódio.

Fig. 1 - O Holocausto foi terrível, incomparável a tudo o que existe hoje.

O extermínio dos judeus Húngaros.
Em 1941 havia 725 mil judeus na Hungria mais cerca de 100 mil outras pessoas que eram cristãos mas que, mesmo assim, foram classificadas como "etnicamente judeus".
Entre 1938 e 1994 vivam com muitas dificuldades mas as mortes eram esporádicas excepto no caso dos 42 mil trabalhadores forçados que morreram na Frente Leste nos anos de 1942-43. 
Em Março de 1944 os Nazis invadem a Hungria e decidem acabar com todos os judeus que restam. 
No dia 14 de Maio começa o transporte de 12 mil judeus por dia para Auschwitz onde já tudo estava preparado para os receber. 
O comboio tinha 45 carruagens de transporte de animais. As pessoas eram metidas como sardinhas em lata, cerca de 70 em cada carruagem que não teria mais que 2,2 metros por 12 metros. Assim, cada comboio transportava cerca de 3000 pessoas.
A maldade ia ao ponto de, durante a viagem, as pessoas não poderem beber porque, desidratadas, ardiam melhor.

Quando o comboio chegava a Auschwitz 
As portas de correr das carruagens abriam-se, por serem próprias para animais, as pessoas precisavam  descer uma altura de um metro que, ajudadas umas pelas outras, lá iam descendo com os soldados nazis sempre a gritar schenell, schenell, schenell.
Aquelas 3000 pessoas enchiam a gare, agarradas a um pequeno embrulho que continha tudo o que restava das suas vidas. Depois, normalmente como cordeiros mas, se necessário, à bastonada, as pessoas eram encaminhadas  para o fundo da gare onde era feita a triagem. Um oficial escolhia algumas pessoa (mais capazes de trabalhar) para um lado e as restantes para o caminho da "desinfecção". Todas as crianças e pessoas mais velhas eram encaminhadas obrigatoriamente por aqui.
No caso dos húngaros, como era uma operação urgente, poucos eram os seleccionados para os trabalhos forçados.
Nas carruagens ainda ficavam dezenas de pessoas porque tinham morrido durante a viagem de sede ou asfixiadas. Chegava a brigada de limpeza e retirava os cadáveres para carroças. 

Fig. 2 - Os oficiais nazis fotografavam as pessoas para meter nos registos do "trabalho efectuado". Estas mulheres e crianças húngaras chegaram e foram imediatamente para o "Templo".

A caminho do extermínio.
Quem era seleccionado para trabalhar, entrava na porta principal do campo onde dizia "O trabalho liberta".
Os outros, seguiam por um caminho que tinha 6 metros de largura, ladeado por muros com 6 metros de altura.Uns metros à frente, as pessoas eram obrigadas a despirem-se "porque a roupa, estando cheia de piolhos e doenças, tinha que ser desinfectada."
Depois de despidas, continuavam a caminhar uns 100 metros onde o caminho fazia em ângulo de 90.º à direita. Neste momento, aparecia de frente o "Templo", uma fachada larga, com duas portas centrais, talvez com 10 metros, encimadas por uma grande Estrela de David amarela.
"Agora vão rezar no Templo enquanto desinfectamos as roupas" diziam os guardas que iam empurrando as pessoas para dentro do "Templo".
Àquelas 3000 pessoas descarregadas do último comboio juntavam-se mais umas 1000 "do serviço regular", pessoas que chegavam noutros comboios (de outras origens) ou outras que, tendo sido escolhidas semanas antes para trabalho forçado, "já estavam cansadas". 
Entravam todas no "Templo" que, porque não tinha mais de 500 m2 de área total, obrigava a que as pessoas ficassem como a sardinha na lata, carne contra carne. 
O "Templo" não tinha qualquer janelas e ao fundo tinha um altar com duas tábuas que tinham escritos os números romanos I a V e VI a X para, tal como se via nas sinagogas, lembrar os 10 Mandamentos da Lei de Deus.

Fig 3 - A ideia era acalmar as pessoas pois só havia 100 guardas para controlar as mais de 4000 pessoas que iam ser exterminadas.

Assim que estavam todas dentro.
Fechavam as portas bem fechadas, com trancas por fora.
Depois, por uma conduta, desviavam para o "Templo" os gases de exaustão do gerador eléctrico. 
As pessoas, sentindo-se a asfixiar pelo fumo, começavam a gritar, crianças a chorar, ouviam-se pedidos de socorro a Deus e aos homens, em Alemão, Húngaro e Polaco mas, cá de fora, ninguém respondia. Estavam os guardas a fumar um cigarro, beber uma cerveja ou a jogar uma partida de cartas à espera que a "reza" acabasse.
Os gritos iam diminuindo de intensidade e, decorridos 15 minutos, já quase não se ouvia nada, só uma espécie de miar longínquo como o que se ouve durante as noites de Fevereiro. 
Ao fim de 20 minutos, o silêncio era total.
"Parece que já estão a dormir" e cortavam os gases do gerador.

Abriam as portas.
Como as pessoas estavam à lota, carne com carne, muitos dos mortos continuavam de pé, com as cabeças caídas.
Depois de uns minutos para que entrasse ar, as brigadas de limpeza começavam a trabalhar.
Estas brigadas eram formadas por prisioneiros seleccionados para trabalhar. Os seus membros eram relativamente bem tratados e tinham a garantia de que não seria asfixiado no "Templo". É que meter uma pessoa dessas (que sabia o que leh ia acontecer) no meio das outras todas poderia sublevar a multidão. 

Fig. 4 - Os das limpezas, num momento de distracção, eram executados com um tiro de Mauser C96 atrás da orelha.

A limpeza.
A brigada de limpeza era composta por algumas centenas de pessoas para que a operação fosse rápida. Umas pessoas entravam na sala, metiam os cadáveres em carroças que traziam cá para fora. Outras pessoas empurravam as carroças até aos fornos crematórios. Finalmente, outras pessoas empilhavam as pessoas nos fornos.
Os guardas estavam especialmente atentos quando vinham novos elementos para a limpeza. Se gritassem, se  se recusassem a fazer o serviço ou se mostrassem apenas alguma repulsa pelo que viam, pumba, levavam logo um tiro de Mauser atrás da orelha e seguiam na carroça.
As carroças iam cheias e voltavam vazias até que o "Templo" ficava vazio.
Depois, porque muitas pessoas se tinham borrado e vomitado enquanto morriam, era preciso limpar tudo  meticulosamente para que, dai a poucas horas, o comboio seguinte pudesse ser processado sem sobressaltos.
Não havia tempo a perder porque, a cada 4 horas, chegava novo comboio com mais 3000 pessoas para "tratar".

O balanço energético.
Um quilograma de pessoa tem 700g de água e 300g de matéria sólida (proteínas, gorduras e ossos). 
Para aquecer e evaporar os 700g de a água a 200ºC são precisas 600KCal mas a matéria sólida, se for queimada, liberta quatro vezes mais energia,  cerca de 2500KCal.
Então, desde que os fornos sejam eficientes, os corpos contêm energia suficiente para serem incinerados sem necessidade de ser usado combustível.

Os negacionistas 
(Ponto acrescentado no dia 20 Ag).
Estive a confirmar num sitio que apresenta as propriedade termodinâmicas dos fluidos. ver, e elevar a temperatura de 700g de água entre os 0,1º C e os 300ºC precisa de 515 kcal e um kg de carne com osso contém 2250 Kcal.
Há quem diga que não foram executadas mais de 15 milhões de pessoas nos campos de estermínio nazis (40% dos quais eram judeus) porque, sendo precisas 30 mil kcal para desidratar um corpo com 60kg de peso a 300.º C , seriam precisos 3,5 litros de queroséne por pessoa, 50 mil toneladas de querosene no total o que, declaradamente, não foram fornecidas aos campos de extermínio nazis.
Mas, como mostrei com o saldo energético, a carne e gordura do corpo de 60 kg continha 135 mil kcal de energia, 4 vezes a energia necessária para incinerar a corpo pelo que, usando fornos com razoável eficiência energética, a incineração dos corpos não precisava do uso de qualquer forma exterior de energia.

Os fornos crematórios.
Para poupar combustível, os fornos estavam em constante laboração. 
Eram feitos de tijolo refractário, 2 metros de largura, 10 metros de comprimento e 6 metros altura fazendo um volume total de 120 m3 onde cabiam 1000 cadáveres amontoados.
Assim que vinham as carroças com os cadáveres frescos, os fornos ainda estavam meios cheios com os cadáveres já "cozinhados" da anterior "fornada". Nessa altura, fechavam a entrada de ar que o forno tinha em baixo (para deixar de sair fumo), tiravam as placas que tapavam a parte superior do forno e começavam a despejar os corpos frescos até o forno ficar cheio até cima. Como em cada forno cabiam 500 corpos frescos, era preciso encher 8 fornos.
Havia o cuidado de cruzar os corpos para que o ar pudesse circulação.
Depois de bem cheio, o forno tornava a ser tapado com as placas, a entrada de ar era reaberta e recomeçava a injecção de um pouco de querosene para acelerar o processo de queima.
Os 500 corpos frescos iam sendo "cozinhado" e desidratados lentamente pelo calor dos corpos da fornada anterior que, mais abaixo, ardiam por já estarem "cozinhados" e desidratados.
Como a queima era a baixa temperatura para poupar combustível, pela chaminé saia um fumo muito negro, carregado de gordura que pousava em todas as superfícies do campo deixando uma camada de gordura que mais parecia crude. Além disso, o fumo empestava o ar com cheiro a carne e cabelo queimados.

Será possível comparar isto com seja o que for?
Em cerca de 40 dias,  chegaram a Auschwitz 147 comboios com 437402 judeus húngaros que foram imediatamente "processados" e dos quais apenas sobraram umas toneladas de fosfato de cálcio e algumas fotografias para fazer prova junto dos superiores de que o "serviço tinha sido feito."

Fig. 5 - Sr. Bispo Manuel Linda, nada, mas mesmo nada neste Mundo, pode ser comparado com o Holocausto.

Mas ninguém se indignou.
Não ouvi ninguém indignar-se porque somos um povo antisemita.
"Fazer judiarias" ainda está no nosso léxico como fazer maldades.
"Tu és como um judeu" é um insulto que ainda se ouve muito.
Só assim compreendo que ninguém tenha dito nada.

Pedro Cosme Vieira

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

29 - A hora

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
______________________

Ver o capítulo anterior (28 - A caixa)    


29 – A hora
As aulas de inglês começaram mesmo na segunda-feira. Pouco antes das 18h30 lá estavam os 30 jovens que tinham sido seleccionadas para seguir na primeira viagem mais o Rúben que ia para Amesterdão, o António que seria o auxiliar do Sr. Dessilva na viagem e ainda, para assistir o Sr. Dessilva, dois jovens escolhidos entre os monitores da escola primária. Naturalmente, também lá estava o Sr. Dessilva porque seria ele o professor. As aulas seriam nos seis dias da semana, entre as 18h30 e as 21h30 para não colidirem muito com o tempo de trabalho. Claro que as mães tinham que deixar os filhos com alguém, com os avós, os irmãos mais velhinhos ou até mesmo com os vizinhos, mas era o sacrifício necessário para que, uma vez na América, conseguissem minimamente compreender a língua e a geografia da cidade onde iriam viver.
Os jovens, tendo sido escolhidos de entre os que tinham sido, no seu tempo, os melhores da escola primária, progrediram bem pelo que, aos fim de 4 meses, o Sr. Dessilva achou que já sabiam o suficiente para “desenrascar” pelo que estava na hora de enviar ao Jonas uma carta para que as questões burocráticas pudessem começar a mexer. É que, por um lado, eram precisas as 30 cartas de chamada e, por outro lado, o pagamento da viagem de navio. Indo nestes pensamentos a subir em direcção à casa do Sr. Costa, cruzou com o Dr. Acácio que ia a descer a caminho de sua casa que ficava no Vale. Sim, no Vale não havia só pessoa malvadas.
– Boa noite Sr. Dessilva, ainda bem que o encontro porque quero dar-lhe uma palavrinha de preocupação. É que lá em baixo as pessoas andam muito curiosas sobre o que se está a passar aqui por cima, anda tudo um pouco nevoso.
– Estarem preocupados e nervosos como se temos mantido segredo? Será que alguém andou a fazer publicidade do que se passa aqui? – perguntou o Sr. Dessilva.
– O problema não foi daqui. É que, soube eu agora, a carta que o Sr. Jonas enviou à Isabel foi intersectada pela polícia. Sabendo eles que alguém iria mandar uma carta de chamada para que esses jovens pudessem partir para América, sabendo-se que o Sr. Dessilva veio exactamente da América e que tem a escola onde ensinar inglês, bastou-lhes somar 2 mais 2 para descobrir que os jovens vão mesmo partir.
– Mas isso que importa aos do Vale?
– Aparentemente nada mas os terratenentes começaram a pensar que poderiam perder os jornaleiros que vão da aldeia trabalhar nas suas terras. Além disso, o Arquiduque irá perder o dinheiro que esses jovens pagam todos os anos. As pessoas estão nervosas, já se falando em “tomar medidas drásticas” o que não imagino o que seja. Por isso, aconselhava a que houvesse um certo secretismo sobre a partida.
– Mas não poder haver secretismo porque para irmos apanhar o comboio, precisamos passar pelo Vale!
– Quem o avisa seu amigo é, isso não vai ser possível, o Sr. Dessilva fale fale com o Costa a ver se organizam a viagem pelo Norte, bem sei que atravessar o monte vai ser difícil, mas vai ter que ser, atravessam do monte pelo Norte e vão apanhar o comboio directamente à cidade. Bem sei que não é uma viagem fácil, ainda são os 80 km por caminhos muito difíceis, mas penso que se estas pessoas todas aparecerem lá em baixo prontas para fazer uma viagem, vai-se gerar uma confusão qualquer. Seria uma tragédia que à última da hora um acontecimento evitável pudesse fazer abortar a viagem.
– Obrigado Sr. Dr., o senhor é um verdadeiro amigo deste povo. Deus há-de recompensá-lo.
– E digo-lhe mais, o melhor é partir antes da primavera pois, durante o Inverno porque ninguém conta que façam a viagem. Desconfio que, se esperarem pela primavera, vão-vos barrar o caminho.
O Sr. Dessilva despediu-se e continuou o seu caminho para casa onde, mal chegou, chamou o Sr. Costa para conferenciar.
– O Dessilva parece preocupado!
– E estou. Saiba o Costa que o Dr. Acácio está com medo do que possam fazer os do Vale quando souberem que vamos mandar pessoas para a América. Ele aconselhou a que atravessemos a montanha pelo Norte o que não é brincadeira nenhuma, subir muito, caminho ser muito mau e que a viagem ter que ser no Inverno mas ter muita neve e gelo.
– Sim, sim, pensando bem, devemos seguir os conselhos do Dr. Acácio – O Costa mostrou uma cara de desânimo para, quase imediatamente, se irradiar de esperança – Não vai ser fácil mas também não é nada do outro mundo, estamos a falar de jovens na força da vida pelo que fazem bem a travessia. Claro que seria mais fácil ir apanhar a estrada lá abaixo ao Vale mas faz-se bem mas esses jovens que estão habituados a calcorrear esses montes fazem a coisa sem qualquer dificuldade. Eu próprio já fiz essa viagem, são uns 80km , um jovem faz isso bem em 2 dias. O primeiro dia é o pior porque tem 20 km a subir até ao cimo do monte, já os 10km a descer até à aldeia que fica do lado de lá, a aldeia do Norte, fazem-se com uma perna às costas. No segundo dia fazem-se bem os restantes 50km até à cidade, até tem um estrada de terra batida. O Sr Dessilva é que talvez tenha algumas dificuldades porque já está um bocado carreado pela idade ...
– Eu estar novo, cheio de energia. O meu problema ser lobos do monte. Não ter lobos no monte? – perguntou o Dessilva.
– Sim, leva-se um burro para o apoiar e o Dessilva consegue fazer a viagem desde que não seja atacado pela doença das alturas. Para habituar o corpo à altitude vai até lá cima umas vezes com os pastores e resolve-se isso. Quanto aos lobos, levam-se 2 pastores com os cães, os lobos têm um medo terrível dos cães dos pastores por causa da coleira de espetos, não se vão sequer aproximar. Depois, são muitas pessoas. Estou a pensar em arranjar uns 20 burros para carregar os baús e a comida para a viagem. Bom era que fosse no tempo do Verão, quando os dias forem mais longos e mais quentes.
– Não Costa, não vamos poder esperar, a viagem vai mesmo ter que ser no Inverno para ninguém desconfiar de que a vamos fazer. Estamos em finais de Outubro, vai ter que ser lá para meados de Janeiro ...
– Isso Dessilva vai ser terrível, com a neve no monte, o dia torna-se noite muito cedo, pode chover ou nevar, mas tem razão, assim vai apanhar as pessoas de surpresa. Mas para isso vai ser preciso passar a comieira o mais tardar às 14h para a noite não cair com as pessoas desabrigadas.
– Vai ter que ser assim – disse o Dessilva.
– Depois, vai ser preciso convencer o estalajadeiro. O Dessilva vai ter que usar de toda a sua diplomacia. O mais certo é não os deixar pernoitar dentro da estalagem mas , como é boa pessoa e amante do dinheiro, arranja sempre um coberto e, como será só uma noite, aguenta-se bem.
– Então, o Sr. Costa podia começar a tratar dessa viagem? Arranjar os pastores e os burros pois vou amanhã mesmo pedir as cartas de chamada. O problema é que o Dr. Acácio disse-me que a polícia do Vale pode ler a carta.
– Não se preocupe, escreva a carta que amanhã mesmo de madrugada os pastores levam a carta e algum deles passa o monte e vai mete-la ao correio na aldeia do Norte. E a viagem, não se preocupe que isso arranja-se de um dia para o outro. Se, por exemplo, fosse para partir amanhã de madrugada, eu saia agora e, em meia hora, amanhã já poderiam partir. Toda a gente tem burros e não faltam pastores que conheçam o caminho. O Sr. Dessilva não se preocupe que vai tudo correr.
Quando os previstos 6 meses de ensino do inglês se começaram a aproximar do fim, o nível do inglês dos alunos tornou-se bastante razoável, também com pessoas inteligentes e aplicadas, um bom professor, 3 horas por dias, 6 dias por semana, não seria de esperar outra coisa. Nessa altura chegou uma carta vinda da América dirigida ao Sr. Dessilva. A Sr.a Celeste quando chegou o carteiro foi logo avisar o Sr. Dessilva.
– De certeza que é informação sobre as cartas de chamada e a viagem do navio.
O Dessilva abriu a carta que pouca coisa dizia por ter sido avisado pelo Dessilva de que a carta poderia ser lida pela polícia.
“Amigo Dessilva,
Aqui pela América está a correr tudo bem. Apesar de sentir a tua falta aqui no negócio, cá me vou aguentando. Já tratei da papelada dos 31 clientes que enviei ao Jacob.
Um abraço amigo
Jonas”
– Sr.a Celeste, as cartas de chamada já chegaram à Holanda. Vamos lá abaixo avisar o Costa.
A Sr.a Celeste foi a correr à frente para poder ser ela a dar a notícia ao Sr. Costa.
– Sr. Costa, há novidades, já chegaram as cartas de chamada pelo que, mais uns dias, as pessoas vão poder partir.
No entretanto chegou o Dessilva que confirmou que a viagem poderia arrancar.
– Sr. Dessilva, já está tudo tratado, tenho 20 burros com os almocreves, os 2 pastores com 4 cães cada e, além disso, já tratei de fazerem a abertura no muro.
– Abertura no muro mas para quê?
– Sabe Dessilva, A porta da aldeia só abre ao nascer do Sol e, apesar de daqui à aldeia do Norte serem apenas 30 km, agora no Inverno, não dá tempo para, saindo ao nascer do Sol, chegar à aldeia do Norte antes de ser noite fechada, não se consegue fazer a viagem em menos de 12 horas de marcha pelo que, vai ser preciso sair de madrugada para não serem apanhados pela noite. E imagine que acontece um imprevisto no cimo do Monte? Será uma tragédia. E o Dessilva lembre-se que quem vai marcar a marcha é a mais lenta das pessoas.
– Sim, sim, está a ter uma muito boa ideia, fica noite às 18h, retirando 12 horas mais 2 h de segurança, ter que sair às 4h da madrugada.
– Exactamente. Além disso, ao sairmos sem passar pela porta, o fiscal vai ficar a saber que saíram pessoas com burros preparados para atravessar o monte. Com a abertura no muro não só se sai mais cedo como ninguém vai saber de nada. Depois, refaz-se o muro.
– Muito boa ideia, nunca me lembraria disso.
Na aula desse mesmo dia, o Sr. Dessilva deu a novidade aos seus alunos.
– As cartas de chamada e os bilhetes para a viagem de navio já estão à nossa espera em Amesterdão. Como o navio parte dentro de 15 dias, temos que partir já. É que além do tempo de viagem até Amesterdão, uma vez lá, ainda vai ser preciso aguardar pela ordem de entrada a ser emitida pelo consulado americano. O melhor é partirmos depois de amanhã. E como temos que seguir pelo Norte, temos que partir bem cedo, no máximo às 4h da madrugada.
– Mas Sr. Dessilva, não podemos sair antes de a porta estar aberta o que apenas acontece quando o Sol nascer – disse um dos alunos.
– Não ir poder esperar pela porta abrir, vamos passar por um buraco no muro. Como vamos atravessar o monte pelo Norte, vai ser preciso que todas as pessoas levem duas mantas de pastor para aguentar o frio. Temos que partir bem cedo porque, com este frio, temos que passar o cimo do monte o mais tardar às 14h e, depois, chegar à aldeia do lado de lá do monte antes de se fazer noite. Não nos podemos atrasar, juntamo-nos aqui na escola o mais tardar às 3h30. Se alguém se atrasar, nós avançamos com a carga e a pessoa vai-nos tentar apanhar pelo caminho. Não vamos esperar por ninguém.
– O Sr. Dessilva desculpe, mas porque vamos atravessar o monte pelo Norte, que é bastante difícil de fazer neste tempo frio, quando podemos descer à aldeia do Vale e apanhar aí uma carroça para a estação de comboios? Nem precisamos de ir à Cidade, apanhamos o comboio no apeadeiro, e será muito mais rápido e fácil que fazer esta travessia pelo monte.
– Sim, sim, boa questão. Não poder ir no Vale, caso nós aparecessemos lá em baixo para apanhar os carroça, pessoas do Vale não deixar partir. Não esquecer que, cada pessoa que ir embora, é menos ouro que o Arquiduque receber e menos um jornaleiro para os terratenentes do Vale. Ser sacrifício mas tem que ser. Diz o povo que, “caminho mais fácil é a descer mas, se quer ir no cimo do monte, caminho fácil não servir”.
Todos abanaram a cabeça em sinal afirmativo.
–Sr. Costa já tratar de tudo, contratar pastores e burros para carregar. Vamos então agora até nossas casa pois já só temos um dia para as despedidas e para a preparação das coisa “See you tomorrow”.

Capítulo seguinte (30 - A facada)

domingo, 9 de agosto de 2015

28- A caixa

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
______________________

Ver o capítulo anterior (27 - a lista)    




28 – A caixa
– O Sr. Dessilva vai ter que me desculpa mas é que eu tenho falado um pouco com as pessoas que foram seleccionadas e começa-se a instalar a dúvida que o Sr. Dessilva consiga mesmo arranjar o dinheiro para financiar a viagem e, pior do que isso, para ajudar no sustento das crianças que vão ficar aqui connosco. Se para a viagem já é preciso muito dinheiro, numas contas por alto, como esses 30 casais têm mais de 100 crianças pequenas, considerando os 20€ por mês que o Sr. Dessilva falou, vão ser precisos 2 mil€ por mês que é muito dinheiro – disse o Sr. Costa durante o jantar.
– Sim Costa, eu contar crianças e ser 117 que ir receber dinheiro.
– O Sr. Dessilva vai-lhes perdoar porque são pessoas que já sofreram muito, mas, apesar de estarem entusiasmadas com a possibilidade de terem uma nova vida na América, as pessoas estão com receio do que possa acontecer às crianças, vou-lhe mesmo rasgar o segredo de que há quem fale que o Sr. Dessilva as vai vender aos turcos como escravos.
– Eu imagino que sim Costa, mas eu já pensar no tudo, precisar de dinheiro para um ano.
– Em tudo como? Isto das crianças vai custar muito dinheiro! Será que esse dinheiro vai cair do Céu como o Maná caiu no deserto? O Dessilva desculpe a minha pergunta, mas um ano são 30 mil €, onde pensa que podemos arranjar esse dinheiro?
– Dinheiro não ter problema, Costa não ter fé no Dessilva. Eu sair no barco e ficar minha caixa para desalfandegar em cidade. Parecer coincidência mas me mandaram dizer que chegou no aldeia do Vale o mala. Amanhã, Polícia Vieira trazer caixa de manhã, vai ver, caixa chegar, problema de dinheiro acabar. Costa não ter fé, esperar amanhã. Agora acabar de comer e dormir.
No dia seguinte, o Sr. Dessilva levantou-se tarde pois aproveitou para descansar do esforço que teve a estudar as candidaturas. Tomou um longo banho preparado pela D. Celeste e, depois, tomou um calmo pequeno almoço ao ar livre, por baixo da ramada que Sr. Costa tinha à porta da cozinha. Quase a chegar à hora do almoço, o Sr. Costa estava na oficina preocupado com o nervosismo das pessoas. Mas, de repente, a Sr.a Celeste apareceu a anunciar ao Sr. Costa que o Polícia Vieira estava à porta a perguntar pelo Sr. Newman Dessilva.
– Sr. Costa, chegou a tal caixa do Sr. Dessilva e o Polícia Vieira disse que a caixa era pequena mas que deveria ter algo importante porque, além de ser muito pesada, chegou na diligência guardada por um homem enviado da cidade que fez questão de que a polícia tomasse conta dela e a guardasse até a entregar ao destinatário. Será que traz lá dentro o dinheiro?
– Acho difícil, onde é que o Sr. Dessilva ia arranjar os 30000€? Mas vamos ter esperança mesmo que mínima. Vá depressa procurar o Sr. Dessilva para lhe dizer que está cá a mala, é que estou a ferver de nervoso.
A Sr.a Celeste lá foi a correr – Sr. Dessilva, Sr. Dessilva, chegou a mala.
O quintal era pequenino. O Sr, Dessilva estava sentado numa pedra a fumar um cigarrito. – Já vou Sr. Celeste – levantou-se e arrancou em lento como se fosse um caracol.
– Que passar Celeste? Ainda não ser cedo para almoçar?
– Não é isso Sr. Dessilva, é que chegou a tal caixa que o Sr. Dessilva falou que vai resolver todos os problemas. Está lá em baixo acompanhada pelo Polícia Vieira.
– Exactamente Sr.a Celeste, exactamente, dessa caixa eu estar na esperar mas agora ter que acabar cigarro. Por favor, chamar Sr. Costa para ver caixa.
A Sr.a Celeste foi a correr à oficina chamar o Sr. Costa mas, pelo contrário, o Dessilva parecia um caracol.
O Sr. Costa foi rapidamente à porta pensando que já lá estava o Dessilva.
– Bom dia Sr. Polícia Vieira – vendo que o Dessilva não estava lá – que é feito do Sr. Dessilva? A Sr.a Celeste já chamou o Sr. Dessilva? Vá rápido chama-lo.
– Sr. Costa, eu já o chamei mas não me pareceu com pressa nenhuma, Disse que tinha que acabar de fumar o cigarro e veio em marcha de caracol. Vou lá chama-lo outra vez a ver se acelera o passo.
Passados uns minutos que pareceram uma eternidade, lá apareceu o Dessilva puxado numa das mãos pela Sr.a Celeste.
– Bom dia – disse o Dessilva dirigindo-se ao Polícia Vieira e ao homem da carroça que o acompanhava. Em cima da carroça puxada por 1 cavalo estava uma pequena caixa, não teria mais de 60 cm de comprimento por 40 cm de largura e de altura, com 3 fechaduras e ainda embrulhado num cadeado fechado com 5 aloquetes.
– bom dia Sr. Dessilva, trouxe-lhe esta caixa que deve estar cheia de chumbo! – disse o Polícia Vieira para o Sr. Dessilva.
– Antes fosse ouro em vez de chumbo – disse o Dessilva – Sr. Polícia, por favor, aguardar Sr. Costa um minuto para dizer onde colocar caixa.
No entretanto, o Sr. Costa estava a ferver.
–Então o Sr. Policia Vieira traz aí a tal caixa do Sr. Dessilva? Deixe que eu descarrego a caixa.
– Calma Sr. Costa que isso não vai ser possível porque a caixa pesa como chumbo. Vai ser preciso arranjar pelo menos 2 homens e dos fortes – disse o polícia.
– O Dessilva olhou para três homens que passavam no fundo da rua e chamou-os – Aqui, aqui por favor que precisar de ajuda, aqui, ajudem-nos por favor – Os homens aproximaram-se – Poder entrar caixa na casa? Pode pôr caixa no quarto?
O primeiro dos homens a chegar, pensando que a caixa seria muito mais leve, tentou tirá-la da carroça mas sem sucesso. “Irra que isto deve estar cheio de chumbo, realmente vamos ser necessários os três.” Os 3 homens pegaram na caixa e entraram com ela porta adentro. “Por aqui”, “por ali”, “por acolá” ia dizendo o Sr. Costa a guiar os homens e o Polícia Vieira a caminho do destino final da caixa que seria o quarto onde estava hospedado o Dessilva. Como a escada era estreita, viram-se todos aflitos para coordenar a operação. Depois de a caixa estar pousada no chão, as pessoas voltaram a descer pelas escadas acabando na rua. O Dessilva tirou umas moedas da carteira, uma de 2€ para cada um dos homens e uma nota de 5€ para o Polícia Vieira – “Muito obrigado, thank you” e foram-se os 4 mais o cavalo e o seu condutor às suas vidas.
– Eu não me importava de carregar uma caixa destas todos os dias – disse um dos carregadores ao olhar para a moeda de 2€, gratificação que nunca tinha recebido na vida – Foram os 15 minutos em que mais dinheiro ganhei na minha vida – disse outro.
O Costa estava cheio de nervoso, queria a toda a velocidade ver o que a caixa continha – Rápido, vamos abrir a caixa!
– Agora ser hora de almoço. Calma, depois é que vamos ver a caixa.
O Costa como que lhe deu um ataque, tendo ficado todo vermelho mas conteve-se com os seus pensamentos. “O que teria uma caixa tão pequena para ser tão pesada? E porque teria tantas fechaduras e cadeados? E porque não veio a caixa juntamente com o resto da bagagem? O que será que haverá na caixa?”. Por querer resposta rápida a estas perguntas todas, o Sr. Costa comeu rapidamente mas, em oposição, o Dessiva comeu muito mais devagar do que era costume.
– Calma Sr. Costa, calma Sr. Costa que ainda para seu coração. Ter calma, depois de almoço ainda tomar café e fumar cigarro. Estar a pensar porque ser caixa pequena pesada? Será que ter chumbo ou ter ouro?
O Sr. Costa estava a ficar irritado com aquela calma toda mas lá se aguentou. Até que, por fim, depois do cigarro bem fumado, o Dessilva ainda disse “Sr.a Celeste, e o cafezinho?” O Sr. Costa mexeu-se todo na cadeira mas lá teve que aguardar que o americano pusesse o mel “Está um pouco quente, tem que esfriar um minuto”, mexeu vezes e vezes sem conta e, por fim “Já está, Sr.a Celeste o café estava muito bom, onde comprar café tão bom?”
– Irra, que me vai dar um ataque – disse o Costa.
– Sr. Celeste, a conversa fica no depois, vamos então ver o caixa que Costa ainda vai morrer no coração.
Subiram as escadas e entraram no quarto onde o Dessilva estava hospedado. Quando chegaram à caixa, eram precisas 8 chaves para a abrir, três nas fechaduras e 5 nos aloquetes. “Será que o Sr. Dessilva tem todas aquelas chaves?” O sr. Dessilva tirou uma corrente que tinha presa ao cinto das calças que tinha na ponta 2 chaves. Tirou outra corrente que tinha outras duas chaves “Já aqui ter chaves”. Abriu o armário e com uma das chaves abriu um baú, com outra das chaves abriu uma caixa pequena que tinha trazido dentro desse baús, lá dentro havia várias chaves “Dessilva já ter todas as chaves”. Pegou naquelas chaves todos, ajoelhou-se e começou a abrir os aloquetes, um por um. Depois, tirou as correntes e abriu uma fechadura, outra fechadura. Nessa altura em que ainda faltava uma fechadura olhou para o Sr. Costa e interrompeu a operação “Agora Dessilva precisar de ir urinar, Sr. Costa esperar um pouco que Dessilva vir já” O Sr. Costa tremeu de raiva “Arre homem que eu estou aqui que não posso, estou aqui que se não vejo já o que está aí dentro, expludo, abra lá a caixa.” Mas o Dessilva tinha mesmo sentido de humor. “Sr. Costa, tem que ser, estar necessidade, é um minuto, com sua licença” e saiu “Arre, arre, arre, burro, raios partam a caixa” disse o Sr. Costa “Este homem quer acabar com o meu coração”.
O Dessilva voltou, puxou pela chave e abriu a última fechadura. Abriu a caixa e a caixa que já era pequena por fora, por dentro reduzia-se a quase nada porque as paredes eram muito grossas, uns 10 cm, formadas por uma chapa de aço encostada à madeira exterior e também uma chapa de chumbo da parte de dentro. O que sobrava tinha uma pequena caixa em madeira escura com uns arabescos em bronze e osso, uma autentica caixa de jóias.
– Abra logo essa tampa para vermos o que está aí – disse o Costa como se fosse uma criança à espera do Pai Natal.
– Sr. costa saber que quem fez esta caixa ser Jonas, fez com carinho especial para caixa seguir para aqui.
– Sr. Dessilva, depois de abrir, conta-me essas histórias todas. Até já sinto o meu coração a palpitar.
– Mas é preciso esta chave pequenina – Disse o Dessilva. Parou um meio minuto para criar mais suspense e foi à corrente presa ao cinto das calças e retirou uma chave pequena que tinha passado até ai despercebida por ser pequena em comparação com as outras chaves e, com ela, abriu aquela pequena caixa.
– Meu Deus, isso está cheio de maços de notas. O Sr. Dessilva tem aí uma fortuna – De facto, haveria na caixa pelo menos 50 maços de notas de 20€ e cada um tinha escrito no atilho “1000€” – São pelo menos 50 mil€! – disse o Costa.
– Ser mais Costa, ser um pouco mais.
– O Sr. Dessilva desculpe eu estar no outro dia desanimado com a falta de dinheiro mas nunca me passou pela cabeça que o Sr. Dessilva pudesse chegar aqui com uma caixa com tanto dinheiro, Isso é muito dinheiro, nem nunca eu tinha visto tanto dinheiro junto. Agora percebo que tenha tido medo de trazer a caixa consigo e o seu peso e as chaves todas pois, para todos os fins, trata-se de um cofre forte de viagem. Isto é muito dinheiro, isto é uma fortuna.
– Sr. Costa, não levar a mal, mas isto não ser nada. Dessilva ser rico no América, este dinheiro não ser nada no América, América é um colosso.
– Com esta massa toda, realmente, as crianças têm o seu sustento garantido, agora as pessoas vão partir sem qualquer reserva.

Capítulo seguinte ( 29 - a hora)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A Ria de Aveiro / Norte precisa de uma intervenção

Quando eu era pequenino, tomava banho na "Ria de Ovar". 
Como a minha mãe tinha muito sono à tarde e bastantes filhos para tomar conta, quando estávamos perto da água, enfiava-nos umas bóias nos braços.
Um local de eleição era a parte Norte da Ria de Aveiro numa praia chamada de Areinho. Era um local tão afamado que até tinha um placa a dizer "Inaugurado pelo sr. Presidente do Conselho de Ministros, Professor Marcelo Caetano."
Era a Bora Bora daquele tempo.
Comparado com o Mar, a água era extraordinariamente agradável e "ainda assim, tinha algum iodo."

O iodo.
Nos anos 1970, quando eu era uma criancinha, o grande inimigo não era a Austeridade, a Troika ou sequer o Passos Coelho ou o Paulo Portas. Nesse tempo não havia desemprego, crise da dívida soberana, FMI, havia apenas Turras e mas o grande problema era "a falta de iodo nas crianças".
Bom para o "iodo" eram as praias com pedras e algas, como a de Miramar, com ondas altas que espalhassem salpicos pelo areal e água fria capaz de congelar os "tintins".
Os remediados da minha terra faziam uns dias de praia "para dar iodo" à rabanhada das crianças em Outubro ou Novembro, quando era tudo mais barato e o trabalho no campo tinha acabado.
Mas a água da Ria era fraca, quantificava-se mesmo que "apanha-se mais iodo em meia hora no Furadouro  que durante um mês inteiro em banhos na Ria". E, nesse tempo, levava-se as crianças à praia por causa do "remédio" e não, como hoje, por turismo e lazer.
O "iodo", além de ser a vacina contra o raquitismo, evitava as gripes e constipações que,  nos meses de inverno, estavam sempre à espreita para levar as criancinhas de volta ao Criador.

Fig. 1 - Desde que não tirássemos as bóias dos braços, podíamos fazer o que bem nos apetecesse, até  arrancar olhos (aos caranguejos).

Mas tudo isso acabou.
Acabou o iodo e, talvez porque dragaram a entrada para o Porto de Aveiro, a Ria a norte da Ponte Vareja passou a estar completamente seca durante a Maré Baixa. Porque durante metade do dia não existe água, deixaram de crescer as algas, as enguias (macho), as tainhas e os caranguejos (que havia aos milhares) e o camarão pequenino que o meu pai adorava fritos com piripiri.

Será que a Ria tem solução?
Como penso que tudo tem solução, vejo-me obrigado a dizer qualquer coisa sobre isto.
A minha solução passa pela divisão a Ria de Ovar em duas metades, a ocidental (que se vê da EN 327) em que a água circula de Sul para Norte, e a Oriental em que a água circula de Norte para Sul.
Serão precisas umas eclusas a Sul da Ponte Varela que evitem a entrada da água na metade Oriental qundo a maré está a subir e a saída na metade ocidental quando a maré está a vazar.
Será ainda preciso fazer um dique a partir da Ponte Varela para Norte (com cerca de 2000m) que divida nesta parte a Ria de Ovar nas duas metade propostas.  
Finalmente, será aberto uma canal para, no extremo Norte, ligar a metade Ocidental da ria com a metade Oriental.

Fig. 2 - Mapa da Ria de Ovar com a proposta de divisão em metade Ocidental e metade Oriental e o sentido de circulação da água.

Será que isto resolve alguma coisa?
Penso que sim.
1) Ao haver um circuito de circulação, a qualidade da água vai melhorar (menos poluição).
2) Ao controlar-se a entrada e saída da água, na maré baixa não haverá o esvaziamento total.
3) Ao controlar-se a velocidade de circulação da águas, esta não será turva.
Tudo isto irá favorecer o ambiente (algas e animais) e poderemos voltar a ver crianças a banhos na praia do Areinho.
E é uma solução barata, sem custos de manutenção nem energéticos. Até poderia haver um pequeno moinho de marés para geração de electricidade.

Motivado pelo comentário do José Luís...
Acrescento um extensão até Aveiro.
Apesar de se manter a porta de um só sentido na Ponte Varela, fazendo um pequeno dique (feito de lama com junco) e um canal no Bunheiro, pode-se facilmente melhorar a circulação da água na ria a Norte de Aveiro.
Fig. 2 - Extensão a Aveiro.

Vamos agora aos outdoors do PS.
Como todos sabemos, o problema do António Costa é ter que, às vezes, abrir a boca.
Enquanto está caladinho, parece que tem solução para todos os problemas de Portugal mas, quando abre a boca, vê-se logo que não, que as suas ideias não são mais que uma reciclagem do socratismo e, como sabemos, a reciclagem deixa a coisa (ainda) pior que o original.

Os reciclistas vão dizer que estou enganado.
OK, dou o braço a torcer (Ude Garame, em japonês), corrijo para "nunca fica melhor que o original".
Como o original, o governo do Sócrates, foi muito mau, um eventual governo do Costa nunca poderá ser melhor que muito mau.

Com os outdoors materializa-se o vazio de ideias do PS.
É o outro caminho, o caminho rumo ao Céu, mas não dizem que coordenadas vão meter no GPS para seguirmos este caminho mítico.
Agora, meter uma velhota a dizer que "Estou desempregada há 5 anos" demonstra que o outdoorista está informado e é uma pessoa séria. A maior parte dos desempregados vêm do tempo do governo do Sócrates, portanto, de há mais de 4 anos.
Mas não quero falar mais destes outdoors porque a "selfie" das europeias é mais interessante.
Os seguristas confiavam que as coisas iriam mudar e, realmente, mudaram, foram todos para a prateleira e voltaram os socratistas.

Fig. 4 - Os socratistas apenas concretizaram a confiança na mudança dos seguristas!

O melhor era o PSD+PP contratar o outdoorista do PS.
Seria como no tempo em que o Pinto da Costa dava um prémio de jogo aos jogadores das equipas que ganhavam ao Benfica.
Aqui seria igual, por cada outdoor do tipo daqueles que têm saído, pumba, 10 mil € de prémio de jogo.
Com mais meia dúzia de outdoors destes e umas intervenções do Costa, o Passos ganha com maioria absoluta.

As sondagens de hoje.
Estão estacionárias. O PSD+CDS melhorou 0,6 pontos relativamente ao PS o que traduz uma diferença de 6 pessoas face ao mês anteiror. Isto está tudo dentro do erro do processo de amostrage.
Usando o Método Boostraping, a probabilidade de o PSD+CDS ganhar é cerca de 30%.
Nãoe stá mal, depois de 4 anos classificados pelo Costa como "o pior governo de que há memória em Portugal".

#Código de R que utilizei.
# 1 é PS, 2 PSD+CDS e 3 Outros e Não sabe
dados<- c(rep(1,298), rep(2,285), rep(3,447))
# Simulo por boostraping 10000 sondagens
 res<-0
 for (i in 1:10000)
   {
   amostra<-sample(dados, 1030,replace=TRUE)
   res[i] <- table(amostra)[1]-table(amostra)[2]
   }
#Calcula a probabilidade de PSD+CDS ganhar
 length(res[res<0])/length(res)

Pedro Cosme Vieira

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code