domingo, 22 de fevereiro de 2015

Livre para ser infeliz

Aqui vai algo que parece nada ter a ver com a economia.
O PS, um amigo, pensando que o texto do Padre Anselmo Borges ("Solidão e ética do cuidado", JN, 21 Fev 2015) lhe era dirigido, pediu-me um comentário.

A Sociedade do Descartável

Em termos estéticos, Borges começa com uma citação que tem extensão exagerada (25% do texto) mais porque apenas quer transmitir a ideia de que, além da Sociedade de Consumo em que as pessoas são felizes se tiverem mais coisas (combatida ferozmente no discurso oficial da Igreja), começa a aparecer a Sociedade do Descartável em que as pessoas são felizes por descartarem as coisas que compraram recentemente e que ainda se mantêm como novas.
Não é um pensamento nada de novo já estando mesmo contido no conceito de "amor platónico": antecipamos que a nossa felicidade vem de possuir algo mas, mal nos apropriamos desse algo, deixamos de lhe dar valor. O valor da coisa perde-se não pela mudança do objecto (do bem, que se mantém tal e qual) mas sim do sujeito (de nós, que ficamos saturados).
Confúcio condensa esta ideia na afirmação de que A nossa felicidade não vem de aquirirmos o que não temos ou de recuperarmos o que já tivemos mas sim de darmos valor ao que temos. 
Eu (e esse amigo) sou um contra-exemplo dessa sociedade do descartável porque uso roupa que comprei há já 25 anos e mesmo outra que me deram (por os donos se terem cansado dela).
Mas Borges tem um pequeno erro de leitura do conceito pois condensa a sociedade do descartável como "a sociedade que quer o permanentemente novo, atirando o velho para fora" quando, nessa sociedade, o deitado fora continua totalmente novo, indistinto do que vai ser comprado para o substituir. 

O descartar das relações e a solidão da rejeição.
Borges, afinal, não quer falar das coisas mas da solidão dos "velhos" (por isso é que usa, erradamente, "o velho" para justificar o descartar). No entanto, a comparação que faz entre os bens e as relações é bastante forçada para não dizer mesmo, errada.

O erro na comparação entre bens e relações é que, por um lado, os bens existem (e podemos comprá-los) enquanto que, por outro lado, as relações se criam e são uma partilha entre pessoa, nós e o outro (ou outros). Assim, não são comparáveis. 
Podemos mandar os bens para o lixo mas nunca as relações pois, uma vez criadas, vão perdurar para todo o sempre nas outras pessoas onde continuaremos presentes em pensamento. Quantas vezes encontramos pessoas de quem não temos a mais pequena recordação mas que, tendo-se cruzado connosco no passado, se lembram de nós como se essa relação nunca tivesse terminado?

O paradoxo é que Borges afirma que o combate da solidão obriga à existência de "solidez de relações e de afectos." Mas se caminhamos para a Sociedade do Descartável, todas as pessoas ficarão mais felizes por as relações e afectos serem descartáveis. Nessa sociedade a solidão combater-se-á exactamente com  encontros de curta duração, as pessoas encontrarão solidariedade na Sociedade do Alterne (pois as pessoas nunca poderão ser descartadas). Será  nos transportes públicos, nos cafés, nos tempos de espera que as pessoas encontrarão as relações (que durarão apenas alguns minutos).
Afinal "velhos" é uma metáfora para aqueles que se mantêm na antiga Sociedade do Permanente e os "outros" é uma metáfora para aqueles que entraram na Sociedade do Descártavel.

A culpa. Prmeiro, Borges pensa que não devem ser os "velhos" a fazer um esforço para combater a sua solidão mas sim os "outros". Isto vem muito da moral cristã (o Messias veio à Terra para nos salvar) mas, porque as relações e os afectos se criam a partir do nada, não podemos pensar assim. Na Sociedade do Descartável em que os "velhos" se sentem perdidos (uma minoria de pessoas desadaptadas), cada "velho" pode combater a sua solidão criando relações e afectos com outros "velhos". Assim, não haverá qualquer necessidade de os "velhos" estarem à espera que os "outros" os salvem. A salvação está entre eles.

A ética. Depois, Borges pensa que os "outros" têm o dever moral de ajudar os "velhos" a vencer a solidão,  quem se tornou "outro" tem a obrigação ética de ajudar quem se quer manter "velho". Mas se o "velho" se quer manter na Sociedade do Permanente por opção própria, se quer ter essa liberdade, então, tem que assumir as suas consequências. 

A maldição. Borges anuncia que aquele que hoje é um "outro", descartando relações e afectos, no futuro será um "velho", vivendo na solidão.
Mas isso obrigaria a imaginar que o que já é "outro", que já vive na Sociedade do Descartável (ou do Alterne), vai querer regredir para a Sociedade do Permanente, procurando exactamente nas relações que descartou (e não noutras quaisquer) a sua companhia. 
E porquê nas relações que descartou e não noutras novas? O que têm de especial as pessoas que conheceu no passado (ou hoje) relativamente às que vai conhecer no futuro?


Isto é um discurso contra a mudança.
A sociedade está em constante mudança, é um constante devir, o que faz com que as gerações mais velhas estejam em constante choque com as gerações mais novas.
Isto é algo que dura há centenas de milhar de anos e que continuará enquanto houver Humanidade.
E Borges já é a geração anterior.
E eu já sou a geração anterior.
Mas a sociedade nunca volta para trás, o progresso é um caminho sem retorno, nunca o que já é "outro" vai querer voltar a ser "velho." 

A Liberdade.
A nossa sociedade evolui no sentido da Sociedade Livre, em que cada um sabe o que é melhor para si e em que apenas as acções declaradamente prejudiciais aos outros (à sociedade) é que são limitadas pela Lei.
Claro que ainda vamos no início do caminho, onde muitas Leis e muitas imposições éticas condicionam o nosso comportamento (e nós o do outro), mas isso vai acabando.
Vemos aproximar o fim da Ética (que não é mais do que a tentativa de uns para condicionar o comportamento dos outros de acordo com as suas convicções de bem e de mal, ideia de Nietzsche), onde cada um é que sabe o que é o bem e o mal (para si) e a Lei trata de lhe lembrar o que é o Mal para os outros.
É a liberdade económica, o famigerado neoliberalismo, de fazermos o que bem nos apetece, trabalhando muito e tendo muitos bens ou não trabalhando e tendo uma vida espartana, despidos dos confortos modernos.
Teremos a liberdade de viver na solidão, na infelicidade ou mesmo de deixar de viver. 
Mas para vivermos de forma livre, sem constrangimentos, teremos que assumir todas as consequências das nossas opções de vida.
Como diz o povo "Quem não trabuca, não manduca."

Pedro Cosme Vieira

1 comentários:

André Henriques disse...

Pedro Cosme Vieira,

Há já alguns meses que sigo atentamente o seu blog e quero agradecer-lhe o serviço que assim presta a quem tem a oportunidade de o ler (e felizmente são muitos).

Discordo de algumas das suas opiniões, concordo com outras (e são mais as vezes em que concordo, confesso). No que não é passível de opinião, nas suas análises, não tenho conhecimentos suficientes de Economia para concordar ou discordar (não prestei grande atenção enquanto estudava, confesso). Gosto das mamas que frequentemente mostra. Também isso é um bom serviço.

Este post, não sendo, aparentemente, sobre Economia, também o é. É sobre a condição humana, sobre pessoas, comportamentos. Por muito que a Economia tente afirmar-se como "ciência" para mim nunca o será (para mim não há cá essa ideia de "ciências sociais"; isto é altamente discutível, claro). Trata-se de comportamentos, pessoas, irracionalidade mascarada de racionalidade, gostos, preferências, enviesamento, opiniões, influências, "modas", "marketing", "clichês", política. É uma opinião; a minha. Compreendo que quem é Economista afirme algo muito diferente... E não quero com a minha opinião menosprezar de modo algum a Economia e os seus impactos nas nossas vidas.

Porém, há algo que tenho aprendido e confirmado com os seus posts. "As coisas são o que são". Na vida, na Economia, nada se decreta administrativamente. Pode aparecer o mais iluminado dos políticos (bom, isso seria difícil...), o mais capaz dos indivíduos, nada acontece porque se "quer". Se assim fosse, e como diz, todos ganharíamos pelo menos 5.000.000.000.000 € por mês.

É por isso que este post tem muito a ver com Economia. Particularmente com os acontecimentos da passada semana, entre a Grécia e a UE (ou a Alemanha, como dizem alguns). Porque o problema está em querer "mijar com a do pai". E isso, em Economia (como na vida) não é sustentável.

Parabéns pelo blog.

(Boa escolha de mamas!)

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