sábado, 27 de fevereiro de 2016

Transportes eficiente precisam de informação

O problema dos transportes coletivos começa pela falta de informação.
Apesar de os autocarros serem tecnologicamente eficientes de transporte de passageiros (i.e, barata),
   Amortização do autocarro -> 0,20€/km (fixo)
   Combustível -> 0,45€/km (variável)
   Manutenção e seguro -> 0,15€/km (meio fixo)
   Motorista -> 0,70€/km(fixo)
 Total -> 1,50€/km, cerca de 0,03€/km por passageiro (com 50 passageiro),
porque a procura é muito variável ao longo do dia, tornam-se ineficientes porque andam quase sempre vazios, com ocupação média inferior a 15%.
De facto, estando o sistema de transporte dimensionado para os períodos de "hora de ponta" (entre as 6h30 e as 9h30 e entre as 17h30 e as 20h30) e como os custos fixos (os motoristas e os autocarros) pesam 2/3 no custo total, a decisão de manter os autocarros a circular vazios não é de todo irracional mas leva a que o sistema se torne globalmente caro e que dê prejuízo. 

As empresas de transportes ainda vivem na idade da pedra!
No sentido de que são geridos sem informação quanto ao que pretendem os clientes.
Hoje, na idade da informação, o mais natural seria que fosse recolhida informação junto de cada cliente para que o desenho das "carreiras" pudesse ser otimizado.
Por exemplo, para os passageiros têm assinatura mensal e fazem viagens com regularidade, deveria ser pedida informação ao cliente usando uma aplicação de telemóvel ou uma página da Internet (ver, Fig. 1).

Fig. 1 - Informação fornecida por um utilizador frequente (dados introduzidos a vermelho).

1 - Para facilitar a identificação das paragens de autocarro, usar-se um par de números que representa a distância em dezenas de metros em relação a um ponto de referência.  Por exemplo,  a paragem 135/216 fica 1350m a Norte e 2160m a Ocidente do ponto de referência e entre a paragem 135/216 e 535/254 distam 4020 m em "voo de pássaro".
2 - O preço a pagar seria em função da distância percorrida, por exemplo, 0,05€ + 4,02km*0,15€/km = 0,653€.
3 - No exemplo da Fig. 1, o sistema iria calcular a que hora o passageiro teria que estar na paragem 135/216 para poder chegar ao destino na hora pretendida, 8h00, com 95% de probabilidade.
4 - O sistema comunicaria (por SMS) ao JSSANTOS a que horas deveria estar na paragem de autocarro 135/216.
5 - Para incentivar o fornecimento de informação, haveria um desconto de 10% no preço da viagem.
6 - Poderiam acabar as assinaturas mensais e, em alternativa, haver um desconto para os clientes frequentes. Por exemplo, um desconto em percentagem correspondente aos quilómetros percorridos durante a semana com um máximo de 50%.
Supondo que JSSANTOS retorna à noite da viagem da Fig. 1  e que não faz mais viagens (um total de 40,2km/semana),  iria pagar  (10*0,653€)*(1-10%)*(1-40,2%) = 3,514€/semana.
Se também voltasse a casa à hora do almoço, pagaria = (20*0,653)*(1-10%)*(1-50%) = 5,877€/semana
Este valor seria debitado na conta do cliente.


A gestão dos veículos.
Agora que a maioria dos clientes já introduziram a informação no sistema (motivado pelos descontos), as carreiras já podem ser desenhadas de forma a minimizar uma função objetivo onde estão incluídos os custos do autocarro, do motoristas e ainda os custos do cliente.

É que o custo da viagem para o cliente tem várias parcelas.
O preço pago pelo bilhete é uma parcela importante do custo incorrido pelo passageiro mas há outras parcelas.
       Parcela 1 --> Preço do bilhete
       Parcela 2 --> Distância percorrida a pé
       Parcela 3 --> Número de transbordos (mudanças de veículo)
       Parcela 4 --> Tempo da viagem


E que fazer aos passageiros eventuais?
Usariam a aplicação de telemóvel ou a Internet para dizer que queriam fazer a viagem. Em último caso, haveria um smartscreen nas paragens dos autocarros para que o cliente introduzisse o destino pretendido (ver, Fig. 2).


Fig. 2 - O cliente eventual carrega num botão e introduz o destino pretendido.

Os veículos deveriam ser mais pequenos.
Os STCP tem 480 autocarros com uma média na ordem dos 100 lugares. Nas horas de ponta é eficiente usar um autocarro com 100 lugares mas, nas restantes horas, não se justificam que circulem com 3 ou 4 passageiros. Se, em alternativa, a frota fosse formada por 3500 carrinhas de 15 lugares, por exemplo,  a Toyota Commuter Hiace (existem outras marcas), haveria possibilidade de fazer carreiras muito mais personalizadas (com a informação existente no sistema) e, nas horas mortas, manter a qualidade do serviço sem manter autocarros enormes em circulação.



Fig. 3 - A Toyota Hiace Commuter é um ligeiro com 14 + 1 lugares sentados (ver vídeo)

O problema é o custo do motorista.
O veículo e combustível fica competitivo
    Amortização do autocarro -> 0,07€/km (fixo)
    Combustível -> 0,15€/km (variável)
    Manutenção e seguro -> 0,05€/km (meio fixo)
 Total -> 0,17€/km, cerca de 0,02€/km por passageiro (com 14 passageiro), mais baixo que o autocarro.
Mas, juntando o custo do motorista, 0,70€/km, o custo dispara para 0,07€/km por passageiro.

Vou imaginar um sistema de transportes coletivos sem motoristas.
No futuro, espero eu que não muito distante, os veículos vão ter capacidade de se auto-conduzirem segundo um plano pré definido.
Com os dados introduzidos no sistema pelo clientes, o sistema vai distribuir os passageiros pelas 35000 carrinhas desenhando trajectórias que minimizem não só os quilómetros globalmente percorridos pelos veículos como também os quilómetros percorridos a pé pelos passageiros, o número de transbordos necessários e o tempo da viagem.
Quando um passageiro eventual carregar no botão a chamar um transporte, o sistema re-calcula todas as trajetórias e escolhe a que induz um menor incremento na função objetivo.

Fig. 4 - Sonho com o dia em que possa dormir enquanto conduzo.

Poderá haver várias empresas no mercado (em concorrência).
Eu sou contra os monopólios. Assim, as carrinhas serão de várias empresas, por exemplo, 50 empresas, as maiores com 100 carrinhas e as menores com 5 carrinhas. As empresas competem pelos clientes. Por exemplo, depois de o cliente submeter a informação da Fig. 1, terá a possibilidade de escolher a proposta que lhe der mais vantagens.
O sistema de gestão dos trajectos também tanto pode ser como o SIBS, uma associação entre as empresas no mercado, ou também haver vários sistemas em concorrência.

E enquanto não houver carros auto-conduzidos?
Antes de haver carros auto-conduzidos, terá que haver comunicação entre os automóveis conduzidos por humanos. Por exemplo, quando o carro da frente travar, comunicar com o nosso sistema de travagem ou, quando quemos entrar na autoestrada, dizemos aos outros carros para nos darem um espaçozinho.
Como isso não existe e ninguém fala no desenvolvimento dos protocolos para que possa existir, provavelmente, os automóveis auto-conduzidos vão cair na classe da clonagem: há 20 anos quando nasceu a Ovelha Dolly, era a grande rotura tecnologia que iria revolucionar tudo e todos hoje já ninguém fala disso.
Não quero crer que, começando pessoas a dizer que é contra a moral cristã haver carros auto-conduzidos ou que põe em causa os empregos dos taxistas, motoristas e que leva à falência a UBER, essa tecnologia entre para o museu como "coisas que iam ser muito importantes mas que nunca chegaram a sê-lo."


Os veículos terão que ser conduzidos por um dos passageiros.

Não podemos, com a nossa classe B da carta europeia, conduzir um veículos ligeiros (Peso Bruto até 3500kg) com mais de 9 passageiros. Mas isto apenas é verdade na Europa Continental pois na Englaterra, estranahmente, já podemos.
Então, o primeiro passo é uma pequena alteração legislativa ao Código da Estrada que permita aos portadores de carta classe B conduzir veículos ligeiros com 15 passageiros mesmo que se limite a velocidade máxima a 60km/h quando viajarem mais de 9 pessoas.
 
A pessoa disponibiliza-se para conduzir o veículo.
A pessoa quando introduz os dados no sistema (rever, Fig. 1) acrescenta que está disponível para conduzir o veículo, quanto quer receber por cada minuto e o tempo máximo que está disponível, em escalões, por exemplo, 3 (ver, Fig. 5).

Fig. 5 - Aprece um ecrã onde as pessoas licitam tempo de condulção. O sistema escolhe o menor preço  mas paga ao passageiro seleccionado o preço do seguinte (leilão por "second price", ver).

As trajetórias serão diferentes.
Porque agora o sistema terá que optimizar (onde inclui a escolha dos melhores motoristas) garantindo que existe sempre um passageiro disponível para conduzir o veículo.
O valor obtido pelo condutor é creditado na sua conta corrente e usado para pagar viagem suas, transferindo o saldo para outras contas (de familiares ou amigos) ou traduzido em dinheiro. 
Podemos ver na Fig. 5 um exemplo simples de uma viagem para 3 pessoas. A viagem começa em A (onde o veículo estava estacionado) e acaba em D (onde o veículo fica estacionado) ficando garantido que todas as pessoas são transportadas sem necessidade de um motorista externo (provavelmente, não é este o trajecto ótimo).

Fig. 6 - Há 3 pessoas a transportar (P1 = A->B; P2 = C->D e P3 = E->F). A pessoa 1 conduz entre A e C e a pessoa 2 (porque é a mais barata) conduz entre C e D.

Fig. 7 - Vamos rápido que a furgonete já está à nossa espera.



E se houver um acidente?
O prejuizo tem que ficar com a empresa não podendo o risco ser transmitido ao condutor pois, nesse caso, deixará de haver condutores disponíveis.
Em Lisboa há uma empresa de partilha de carros (é um "aluguer sem condutor" ao minuto) mas já é a terceira (as duas anteriores falharam)  e não está a arrancar do chão porque transmite para o condutor um exagero de riscos.
Quando o condutor A entra no veículo tem que o observar bem e tomar conta de todas as falhas. Depois, faz o trajeto e estaciona o carro num sítio qualquer. Mesmo que não tenha tido qualquer toque, primeiro, pode ter observado mal (e haver algum dano), depois, se alguma coisa acontecer enquanto o carro está estacionado (por exemplo, vandalismo) e pode estar estacionado dias sem aparecer novo condutor, é o condutor A que tem que pagar os danos que entretanto aconteça, pois ninguém verifica o estado do carro no momento em que é entregue.
Podem achar que é um elevado risco meter o nosso carro na mão de um desconhecido mas tem que se usar a estatística: se algúem estragar o carro, vai para a jarra (muito dificilmente tornará a conduzir).

Finalmente, eu acho o Trump um bom candidato.
Há um ano quando os refugiados estavam a começar a dar às costas da Grécia tínhamos muitos políticos a dizem "deixem vir os refugiados até nós". Passado menos de um ano, as fronteiras estão quase todas fechadas.
Não penso haver qualquer diferença entre dizer "Vou contruir um muro para parar a imigração ilegal" e fazer um muro e dizer "Esse homem é o Satã, temos é que construir pontes" e fazer um muro.
O Trump diz que faz e faz, os outros dizem que não fazem mas fazem.

Será racista, anti-semita, contra as mulheres? 
É como as outras pessoas.
Eu fui na quarta feira ao centro de saúde fazer um corativo à minha mãe que partiu o cotovelo, seriam uma 17h30, e estavam 4 pessoas à espera para a consulta aberta que começaria às 18h com o Dr. Eurico. No entretanto chegou uma cigana que era a quinta pessoa. Não só foi a primeira a ser atendida, como foi logo às 17h30 (não esperou que o Dr. Eurico chegasse).
 - É para não haver problemas pois estão uns quantos lá fora - disse a menina da secretaria a justificar-se às outras 4 pessoas que ficaram para trás.
As pessoas encolheram os ombros.
É o que os americanos chamam descriminação positiva.

Fig. 8 - Na França, com um presidente esquerdista, todo humanista, que diz ser muito amigos dos refugiados, as barracas são para demolir e o povinho que se desenrasque, que fuja para a Bélgica, que vá para o diabo que as carregue.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Estatística, as Sondagens e o erro de previsão

Quando apresentei as "minhas" previsões para as presidenciais (ver) ...
o Abel Lisboa veio dizer "fico sempre preocupado quando vejo um docente da casa (...) a dizer que com 95% de prob. o parâmetro populacional (repito, é uma constante e não tem prob. associadas) está dentro do IC" . A palavra "casa" dá força à conjectura de que esta dúvida foi colocada por um  meu colega de trabalho, talvez.
Sendo assim, sinto a obrigação reforçada de escrever algo mais detalhado sobre este problema pois, a ser verdade o que o Abel Lisboa diz, as sondagens não têm fundamento na Ciência!


As pessoas confundem conceitos.
E, uma vez aprisionadas nessa confusão, não vão aos fundamentos, único local onde podem encontrar a forma de se libertarem desse enredo.
Neste poste vou aos fundamentos da Estatística para explicar como, a partir de uma sondagem (com a qual calculamos proporções) é científico construir um intervalo de confiança sobre os resultados eleitorais (para as proporções na população, que desconhecemos).


A Matemática nunca pode dizer "agora não que estou com dores de cabeça".
A matemática é instrumental  na procura que a Humanidade faz no sentido de compreender o Mundo. Então, tal como a linguagem não pode ser um entrave à comunicação, a matemática nunca pode ser um entrave nesse caminho de procura do conhecimento.
Sendo a Matemática uma construção da humanidade, em presença de um problema que a Matemática não consegue ajudar a resolver, teremos que a fazer evoluir no sentido de nos poder ajudar.
A Matemática não sendo mais que uma linguagem, evolui com as necessidades da Humanidade.
Quando o homem pousou na Lua, tivemos imediatamente que criar a palavra Alunar e, quando surgiram as máquinas programáveis de fazer contas, apareceu imediatamente a palavra Computador.

O que é a Estatística?
A Estatística apareceu quando a "matemática do determinístico" se mostrou incapaz de resolver problemas com um número grande de elementos livres.

Dentro da Matemática temos a Lógica, dentro da Lógica temos a Teoria dos Conjuntos e dentro da Teoria dos Conjuntos temos a Estatística que tem o seu fundamento nos 3 Axiomas de Kolmogorov:

Sendo que existe o conjunto "A", a medida "P" e os sub-conjuntos genéricos disjuntos "a1" e "a2".

Axioma 1:  P(a) >= 0 (A medida "P" sobre o subconjunto "a" é maior ou igual a zero)

Axioma 2:  P(A) =1 (A medida "P" sobre o conjunto "A" é a unidade)

Axioma 3:  P(a1 U a2) = P(a1) + P(a2) (A medida "P" sobre o subconjunto "a1" unido com o
subconjunto "a2" é dado pela soma da medida  "P" sobre o subconjunto "a1" com a medida "P" sobre o subconjunto "a2")

Em termos de linguagem, chamamos a "A" o Conjunto dos Acontecimentos Possíveis e a "P(a)" a Probabilidade de a concretização cair dentro do subconjunto "a".

Vamos agora à sondagem multinomial.
Multinomial quer dizer que o acontecimento tem várias "coisas" em simultâneo. No caso, traduz que acontecem várias proporções ao mesmo tempo, por exemplo, a votação em 5 partidos mais a abstenção, votos nulos e em branco.
Sendo que pretendo fazer uma sondagem, passo a ter dois conjuntos de acontecimentos possíveis.
Por um lado, tenho o conjunto A com todas as proporções possíveis na população e, por outro lado, tenho o conjunto B como todas as proporções possíveis na sondagem.
Havendo 6 proporções possíveis, os conjuntos A e B são IR5 em que cada dimensão vai de 0% a 100%.
A População é um ponto no conjunto A e a "Amostra de dimensão n" é um Ponto no conjunto B.



 Fig. 1 - Para cada população concreta (a cruz dentro de A) correspondem múltiplas sondagens possíveis (uma diferente função P em B)

Será que a Estatística diz algo sob como deve ser A ou B?
Olhemos para os 3 axiomas de Kolmogorov. Será que está lá alguma diferença entre parâmetros e variáveis? Entre coisas que já aconteceram e desconhecemos e coisas que ainda estão para acontecer?
Será que fala lá em variáveis aleatórias, variáveis determinísticas?
Não, nada disso, são coisas muito genéricas.

O que é uma sondagem?
A população é um ponto no conjunto A.
Para, em termos conceptuais, poder extrair uma sondagem tenho, primeiro, que conhecer as proporções na população. Então, o problema concetual que vou resolver é o seguinte:

Conhecendo  as proporções na População (um ponto em A), pretendo saber as propriedades da Amostra (a função P no conjunto B).


Eu ter informação sobre a população (ponto de A que se concretizou), dá-me informação sobre a função P no conjunto B.
Parece estranho eu saber, à partida, as proporções na população quando, aparentemente, é exactamente isso que pretendo prever usando a sondagem. Mas este conhecimento é apenas conceptual, um faz de conta para podermos avançar, uma espécie de backward induction que em linguagem matemática se diz, "Assumido H0".

Este cálculo é impossível em termos algébricos mas torna-se fácil com o Método de Monte Carlo.

A sondagem.
Vou fazer uma sondagem com n = 1500 votos, 900 votos nos "partidos" porque é a dimensão das sondagens usualmente apresentadas pelas televisões.
Para calcular P vou usar simulação estatística (o Método de Monte Carlo)

1 = Fixo a população (uma extracção aleatória);

2 = Faço uma sondagem Extraindo da população obtida em 1 uma amostra com 1500 votos (aleatória);

3 = Calculo as proporções na amostra obtida em 2.
4 = Repito os passos 2 e 3 muitas vezes para poder calcular o desvio padrão.
(Estes quatro pontos estão no Programa 1)

5 = Para tabelar a relação entre a proporção e o erro, repito os passos entre 1 e 4 muitas vezes. 

Apesar de B ser em IR5, as combinações em IR5 não são determinantes em P. Então, vou condensar os resultados em IR (ver, Fig. 2 e tabela1). Multipliquei o desvio padrão por 1,96 para obter o "erro" para uma probabilidade de 95%.


Fig. 2 - Relação entre a proporção e o "erro" para um intervalo de confiança de 95% (900 votos nos partidos)



Proporção Erro (95%) DesvPad

55% 3,1% 1,6%

50% 3,1% 1,6%

45% 3,1% 1,6%

40% 3,0% 1,5%

35% 3,0% 1,5%

30% 2,8% 1,4%

25% 2,7% 1,4%

20% 2,5% 1,3%

15% 2,2% 1,1%

10% 1,9% 1,0%

5% 1,4% 0,7%

Tabela 1 - Erro de amostragem numa sondagem com 900 votos válidos num dos partidos

E se eu tiver mais votos?
O erro cai proporcionalmente à raiz quadrada do número de votos. Supondo que tenho agora uma sondagem com 3500 votos expressos e obtenho para o PSD uma proporção de 35%, então, o "erro" a 95% passará a ser (3,0%)* (900/3500)^0,5 = +-1,5%.

Se na população o PSD tiver 35%, na sondagem que vou fazer, o PSD terá uma proporção entre 33,5% e 36,5%, com 95% de confiança

E se tiver mais abstenção?
O erro padrão é apenas dependente do número de votos expressos nos partidos (não interessa a taxa de abstenção).

Mas o que eu quero saber é outra coisa!
Não me interessa saber as propriedades da sondagem (que ainda não fiz) depois de saber a proporção na população mas sim o contrário, quero saber a proporção na população (que não conheço) depois de saber a proporção na sondagem (que já realizei). Então, o problema que vou resolver terá que ser outro:


Conhecida  a proporção na Amostra (um ponto em B) pretendo saber as propriedades da população (a função P no conjunto A).

O que eu quero poder dizer é "Como na amostra com 900 votos válidos o PSD obteve uma proporção de 33%, então,  na população, a proporção estará entre 30,0% e 36% com 95% de confiança."

 Fig. 3 - Cada sondagem concreta (a cruz dentro de B) pode ter origem em múltiplas populações possíveis (uma diferente função P em A)

Segundo o Luís Portugal, isso é impossível de fazer.
O argumento é que a proporção na amostra é um número concreto e não uma variável aleatória.
Mas os 3 axiomas de Kolmogorov não dizem nada disso!
Afinal qual é o axioma que é violado ao afirmar que "o parâmetro estará entre x e y?"
1) Verifica-se que a medida P no conjunto A é unitária.
2) Verifica-se que a medida P num subconjunto de A é  maior ou igual a zero.
3) Verifica-se que a medida na reunião de subconjuntos disjuntos de A é a soma das medidas dos subconjuntos.
Então, nenhum axioma é violado!


Vejamos este exemplo.
Sendo, por definição, um automóvel "uma coisa que se move por meios próprios", então, uma scooter é um automóvel! (ver)
Claro que muita gente irá dizer, "um automóvel é um automóvel e uma scooter é uma scooter" mas apenas porque, mais tarde, alguém nos fez a lavagem ao cérebro de que um automóvel tem que ter 4 rodas.
Mas a definição não fala no número de rodas!
Na Estatística passa-se o mesmo. Têm que ser respeitados os 3 axiomas de Kolmogorov e apenas os 3 axiomas de Kolmogorov mas alguém nos impôs restrições descabidas a que, agora, estamos agarrados e não temos liberdade de pensamento para nos libertarmos dessas amarras.

Como vou agora calcular a coisa?
Para usar o MMC tenho sempre que fazer a sondagem "sob H0". Então, vou ter que fazer diferente do que fiz na Fig. 2 / Tabela 1.

1 = Fixo a população (uma extracção aleatória);
2 = Faço uma sondagem extraindo da população obtida em 1 uma amostra com 900 votos (aleatória);
3 = excluído
4 = Repito os passos 1 e 2 muitas vezes obtendo pares de pontos, uma ordenada em A (população) e outra em B (sondagem).
5 = Com os pares obtidos em 4, calculo o desvio padrão da ordenada que pertencem a A com a restrição de a ordenada em B estar no intervalo ]4,5%; 5,5%] (exemplo para calcular o erro da previsão em A quando temos o resultado 5% na Sondagem).
(Ver, programa 2)

Quais são os resultados?
Obtenho exactamente a Tabela 1!
Quer isto dizer que, em termos estatísticos, o fenómeno é simétrico. Assim, existe propriedade comutativa entre os conjuntos A e B:
Tenho um ponto em A e determino a função P em B
     é equivalente em termos estatísticos a
Tenho um ponto em B e determino a função P em A

E o Bootstraping?
Em A-->B uso a população concreta para calcular as propriedades de P em B.
Em B-->A uso a sondagem concreta para calcular as propriedades de P em A.
Apesar de usar em ambos os casos a população (um ponto em A), haver equivalência entre A-->B e B-->A faz com que o bootstraping (que usa a amostra em vez da população) seja uma metodologia válida.


Tenho que me ir deitar que este poste demorou-me muito tempo a escrever

 #Programa 1 com o código em R
#Proporção na população codificada pela ordem Abst, PSD, PS, BE, CDS, CDU
n <-1500 #Tamanho da amostra
populacao<-c(0.40,0.22,0.20,0.07,0.06,0.05) #Proporções na população
c0<- c1 <-0; c2 <-0; c3 <- 0; c4 <- 0; c5<-0 #Inicialização das variáveis onde se guardam as sondagens

for (i in 1:10000) #Fazem-se 10000 sondagens
    {amostra <- sample(1:6, n, prob=populacao, replace=TRUE) #Sondagem
     res <- table(amostra) #Calcula as proporções na amostra
     res <- res/sum(res[2:6])
    #Guarda as proporções
    c1[i] <- res[2]; c2[i] <- res[3]; c3[i] <- res[4]; c4[i] <- res[5]; c5[i] <- res[6]
    }
c(sd(c1),sd(c2),sd(c3),sd(c4),sd(c5)) #Calculo o desvio padrão de cada proporção

[1] 0.015868676 0.015602831 0.010683888 0.009996019 0.009207823


#Programa 2 com o código em R
abst <-0.40
votos.validos <- 900
n <- votos.validos/(1-abst)
media<-0; desvio<-0; s<-0; a <-0; b <-0
# Sorteia populações e faz uma sondagem para cada população
for (i in 1:20000)
 {#Sorteia uma população em B
   cand <- runif(5,min=0.1,max=3)
   cand <- cand/sum(cand)
   populacao<-c(abst,cand*(1-abst))
  #Tira uma sondagem em B sobre a população anteiror
   amostra <- sample(1:6,n, prob=populacao, replace=TRUE)
   resultado <- table(amostra)
  #Guarda os pontos em A e os correspondentes em B
  for (j in (1:5))
    {a[s+j] <-cand[j];
     b[s+j] <- resultado[j+1]/sum(resultado[2:6])
    }
 s<-s+5
 }
resulta_A<-0
resulta_B<-0
for (j in (1:60))
{resulta_A[j] <- sd(a[b>(j-1)/100 & b<=(j+1)/100])
 resulta_B[j] <- sd(b[a>j/100 & a<=(j+1)/100])
}
x<-data.frame(A<-resulta_A,B<-resulta_B)
write.table(x,file="e://saida.txt",sep=";")

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A sondagem de todas as sondagens presidenciais

Temos 3 sondagens. 
Procurei no Google informação sobre as sondagens presidenciais de ontem mas não encontrei anda. Então, meti a minha TV para ontem e revi os telejornais.


- - - - - - - - - - -Cat / RTP - - Eur /SIC - - Inter/TVI - - - Sondagem das sondagens
Marcelo - - - - - - - -52% - - - - - 55% - - - - 51,8%- - - - - - - 53,1%
Nóvoa - - - - - - - - -22% - - - - - 19% - - - -16,9%- - - - - - - 19,9%
Maria de Belém - - - 8% - - - - -13,3% - - - 10,1%- - - - - - - 10,4%
Respostas - - - - - -3340 - - - - - 2015 - - - - 1043 - - - - - - - 5298
Indecisos - - - - - - 18% - - - - - 16,1% - - - - 14,5% - - - - - -16,6%
Taxa de resposta -  68% - - - - - ????? - - - - -60,9% - - - -  - 65,7%


Com estes dados posso fazer uma meta-análise.
Primeiro, juntei as 3 amostras numa amostra (a população a usar na meta-análise) maior refazendo os resultados da melhor forma possível dada a informação disponibilizada.



Catolica EuroSond   InterCamp         Total
Marcelo 955 930 462 2347
Novoa 404 321 151 876
Belém 147 225 90 462
Abst 403 324 151 879
Telefonemas 3294 3065 1713 8072
Respostas 2240 2015 1043 5298


#Programa em R usado no cálculo da probabilidade de haver segunda volta
#Marcelo, Novoa, Belem, Outros, Não Respondeu
  Respostas <- c(2347, 876, 462, 734, 3653)/8072 # Respostas relativas nas 3 sondagens
  Marcelo<-0; Novoa<-0; Belem<-0 #Inicializo as variáveis que guarda os resultados de cada candidato
#Faço 100000 "sondagens" por bootstraping
  for (i in 1:100000)
    {sondagem <- sample(c("1M", "2N", "3B", "4O", "5NR"), 8072, prob = Respostas, replace=TRUE)
    s <- table(sondagem) #Conta quantos votos tem cada um
    Marcelo[i] <- s[1]/(8072-s[5]) #Calcula a percentagem dos votos expressos
    Novoa[i] <- s[2]/(8072-s[5])
    Belem[i] <- s[3]/(8072-s[5])
    }
#Resultado do Marcelo correspondente ao percentil 0,01%, 10/100000
sort(Marcelo)[10]
[1] 0.503132

Agrupando as 3 sondagens numa-meta análise, posso concluir que
1 => A probabilidade de haver uma segunda volta é menor que 0,01%
2 => Com um grau de confiança 99%
         Marcelo vai ter entre 51,2% e 55,1%
         Nóvoa vai ter entre 18,3% e 21,4%
         Maria de Belém vai ter entre 9,3% e 11,7%

A probabilidade de o Marcelo ter na primeira volta menos que 50% é remota, inferior a 0,01%

As pessoas gostam de saber o erro a 95%.
Marcelo +-2,1 pp
Nóvoa +-1,7 pp
Belém +- 1,3 pp

#codigo do R
(sort(Marcelo)[100000-250] -sort(Marcelo)[250])/2
(sort(Novoa)[100000-250] -sort(Novoa)[250])/2
(sort(Belem)[100000-250] -sort(Belem)[250])/2

p.s. - Os resultados finais.
As eleições realizaram-se e os resultados foram
Segunda Volta --> Não houve (dentro da previsão)
Marcelo --> 52,00% (dentro da previsão)
Nóvoa --> 22,89% (ligeiramente acima da previsão)
Belém --> 4,24 (muito longe da previsão)


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Serão os veículos eléctricos o futuro dos transportes?

O Sócrates achava que Portugal ia ser líder mundial no uso dos automóveis eléctricos. 
Dizia ele que a electricidade é muito mais barata que os combustíveis fósseis.
Vamos ver se isso é verdade.

Quanto custa um kwh produzido num motor a gasóleo?
O preço do gasóleo na bomba é cerca de 1,00€/litro (ver) mas, neste valor, 2/3 são impostos, seja o ISP, 0,4424€/litro (ver), ou o IVA, 23% sobre tudo, incluindo o ISP. Assim, actualmente, o preço sem impostos é de apenas 0,33€/litro.
Um motor a gasóleo gasta 0,205g/h para produzir 1KW de potência (ver, Audi 2.5 litre TDI) o que, dada a densidade do gasóleo, 0,853kg/litro, tal traduz um consumo de 0,24 litros/h para produzir um kw de potência.
Como na transmissão entre o motor e as rodas e na caixa de velocidades há uma perda de potência na ordem dos 10%, na potencia na roda (diz-se "no cubo"), temos um custo de:
      Custo do gasóleo por kwh no cubo = 0,24 litro/kwh x 0,33€/litro / (1-10%) = 0,088 €/kwh

Quanto custa um KWh produzido por um motor eléctrico?
O preço da electricidade na nossa factura é de 0,1644€/kwh ao qual temos que descontar o IVA de 23%. então, o custo é de 0,134€/kwh, maior que o preço do gasóleo.
Acresce que entre a tomada, a bateria e o motor existe uma perda de 30% pelo que "no cubo", temos um custo de:
      Custo da electricidade por kwh no cubo = 0,134€/kwh / (1-30%) = 0,191 €/kwh

Fig. 1 - Este autocarro escolar detém o recorde de menor consumo, 5kg de broa aos 100km.

A electricidade fica 117% mais cara que o gasóleo.
Em termos de combustível, afinal o gasóleo fica bastante mais barato que a electricidade.
Acresce a este facto que o motor a gasóleo co-gera calor que, nos países e nos meses mais frios, é necessário para o aquecimento dos passageiros. Assim, um carro precisa de um mínimo de 5kw de potência para o aquecimento o que, num consumo de 5 l/h, 20kw, obriga a um incremento no consumo do carro eléctrico em 25%.
      Custo da electricidade por kwh no cubo em dias frios = 0,191€/kwh x (1+25%) =  0,239€/kwh
Em dias frios, a energia do carro eléctrico custa quase o triplo do combustível do carro a gasóleo.

Não confundir preço com custo.
Claro que está a pensar "mas, como eu pago impostos, no meu bolso, a potência produzida com gasóleo custa 0,264€/kwh e eu consigo electricidade a metade do preço no período noturno pelo que a potência produzida com electricidade custa-me apenas 0,147€/kwh."
Isso é verdade mas o Costa precisa do imposto que cobra sobre os combustíveis rodoviários (2300*1,23 = 2800 milhões €, ver). Se mais e mais pessoas deixarem de usar combustíveis líquidos, o Costa terá que ir buscar esse imposto a algum lado, acabando a electricidade que vai usar no automóvel por ter que pagar "ISP".
Por outro lado, a electricidade é mais barata de noite porque ninguém a usa. Para substituir os combustíveis líquidos seriam precisos cerca de 11000 kw de potência entre a 1h e as 7h da madrugada quando o consumo médio ao longo das 24 h de 2015 foi de 5100 kw (ver), com apenas metade em baixa tensão (as nossas casas e pequenos negócios). Assim, o consumo de electricidade (e a conta) das nossas casas teria que quadriplicar para podermos meter electricidade nos nossos carros todos.

E há a bateria.
Eu tinha um colega meu do Judo, engenheiro de formação, que estava a trabalhar numa bicicleta electrica. Disse-me ele que "Para a bicicleta andar a 36km/h precisa de uma potência de 0,25kw, um terço de cavalo, o que fica muito barato, apenas 0,75€ por 100 km."
O tempo foi passando, ele desapareceu das aulas e, vim a saber pela D. Fernanda, que "teve problemas com a empresa, penso que faliu."
Pensei eu para com os meus botões, como pode ter falido se a bicicleta eléctrica fica tão barata?
Fui então investigar.

O problema está na bateria.
Uma bateria de 0,36 kwh, que daria para a bicicleta ter uma autonomia de 40km, custa 600€.
Depois, a bateria só aguenta 400 cargas!
Quer isto dizer que, se uma pessoa andar 20 km para o emprego e voltar, gasta um máximo de 0,10€/viagem em electricidade mas, em bateria, vai desgastar 1,50€ pelo que o custo total fica em 1,60€.
Assim, em vez de ficar barato, fica mais caro do que andar de autocarro a que acrescenta o custo da bicicleta (700€ sem bateria) com o risco de ser roubada.
Num carro coloca-se o mesmo problema. A bateria custa milhares de euros e, ao fim de apenas alguns milhares de quilómetros tem que ser substituída.

E se os combustíveis fósseis acabarem?
Isso já será outra conversa. Se o petróleo (e o gás natural, pois ainda é muito mais barato que usar electricidade) diminuir de forma a que o seu preço aumente para 200 dólares por barril, 6 vezes o preço actual, a electricidade já se tornará rentável.
Se houver uma inovação tecnológica (por exemplo, nas células solares e nas baterias) que leve a electricidade dos 0,16€/kwh para 0,03€/kwh também já será competitivo usar electricidade nos automóveis.
Até lá, serão sonhos de governantes loucos.

A solução é a bicicleta mas tem que ser melhorada.
No uso individual, a bicicleta é um veículo barato, podendo-se na Índia comprar uma bicicleta de 26'' nova por 65€ (Rs. 4521, ver). Também é energeticamente muito eficiente, multiplicando pelo menos por 5 a distância que conseguimos percorrer e por 10 a carga que conseguimos transportar com as nossas pernas (em bom piso e plano).
 Mas as bicicletas precisam melhoramentos ao nível do uso colectivo em que cada um possa pedalar na medida das suas possibilidades.

Fig. 2 - Nos países pobres como a Índia, a bicicleta é o principal veículo "auto"móvel.

Portugal pode passar a ser a Meca das "quadricletas".
Existem bicicletas para duas, três ou mais pessoas em que todos pedalam mas existem problemas na  transmissão da energia das diferentes pessoas à roda. Como Portugal, tem tradução e é o terceiro maior produtor de bicicletas da Europa (ver). O sector concentra-se na parte oriental do Distrito de Aveiro (no triângulo, Águeda, Sangalhos, Cantanhede).

Fig. 3 - Nesta bicicleta, o motorista tem que ter carta de pesado com serviço público de passageiros (por ter mais de 9 passageiros, ver)

Criar a Volta a Portugal em quadricleta.
A melhor forma de "obrigar" a industria a inovar é criar uma prova onde haja concorrência entre os produtores.
Tal como existem corridas de barcos com vários remadores, cria-se uma prova para bicicletas com vários atletas, por exemplo, 4 atletas e 100 kg de carga que, por questões de segurança, terão que ser nas autoestradas, e temos tantas sem trânsito.
Estou a imaginar uma tirada a começar na fronteira em Valença e a acabar no mar em Albufeira, 650km, 10 horas a pedalar e, no dia seguinte, voltar tudo para cima. Penso que ia ter mais impacto que o Paris-Dakar.
Depois, o Ministério da Industria, dá  à equipa vencedora um incentivozito de 100 mil €.


Fig. 4 - Não há nada melhor do que a bicicleta para fazer mulheres boas.

E como estamos de Ébola?
Cheguei a pensar que não nos íamos safar. Ver aqueles bairros de lata totalmente caóticos, as pessoas com muito pouca escolaridade, sem esgotos nem médicos e sem haver qualquer tratamento retiraram toda a esperança de que os africanos conseguissem controlar a epidemia.
Imaginei o Ébola a alastrar como fogo na gasolina, primeiro milhares, depois milhões e dezenas de milhões  para, por fim, fazer-se a conta em centenas de milhões de mortes.

Extraordinário.
Desde o dia 25 de Novembro que não é registado nenhum caso novo!
Em 28542 casos registados, morreram 11299 pessoas, uma taxa de mortalidade de 40%.
28542 pessoas que fizeram face à doença de mãos nuasn sem qualquer esperança e sem qualquer ajuda médica mais que não fosse que uma cobertura em lona e água para beber.
Mas os africanos conseguiram, a epidemia acabou.
Enganei-me totalmente, os africanos conseguiram derrotar o vírus mas deixaram milhares de crianças orfãs.

Fig. 5 - Os esquerdistas não falam dos orfãos do Ébola (e da SIDA) talvez por não aparecerem nos noticiários (ou por serem pretos retintos?).

Pedro Cosme Vieira

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Será que Adão e Eva existiram mesmo?

E ao sexto dia, Deus criou Adão e Eva.
Agora que estamos no Natal que representa o renascimento da Humanidade, ou o Chanucá que representa o renascimento do Templo, é hoje o dia certo para discutir a questão do nascimento da humanidade.


O Génesis, primeiro livro da Tora, o livro sagrado dos Judeus, transcreve no final da Idade do Bronze um conjunto de histórias que circulavam oralmente pelo Crescente Fértil desde o Neolítico. Todos conhecemos este livro porque foi, posteriormente, incorporado na Bíblia (no Corão e no Livro de Mormon).
Sendo uma composição de historias transmitidas oralmente, apresenta várias versões para o mesmo acontecimento.
Para o aparecimento da Humanidade, existem duas versões:
"E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou" (Gen 1:27).

E outra versão um pouco mais romanceada:
"E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente." (Gen 2:7) "E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão."(Gen 2:22)

Interessante notar que, pela minha investigação (não muito aprofundada) em Hebraico antigo, Adão é a primeira letra e Eva a ultima letra da palavra que representa Deus. A evolução linguística da junção de Adão com Eva deu a nossa palavra "Avé" da oração Avé Maria (que quer dizer "Deus está com Maria") e Jeová (nas Testemunhas de Jeová). Para nós, a palavra Deus resulta do deus grego Zeus.
Fazendo uma paráfrase para o Português, estará escrito no Génesis qualquer coisa parecida com "E Adãoeva criou Adão e Eva à sua imagem e semelhança".

Hoje sabe-se que Adão e Eva eram pretos, que a cobra era a sogra do Adão e que Deus falava Crioulo.

Se andarmos para trás.
Se os pais tiverem mais de dois filhos, ao andarmos para o passado, cada vez haverá menos pessoas. Supondo que desde sempre, em média, cada 10 casais tiveram 21 filhos então, Adão e Eva foram criados há apenas 450 gerações, isto é, há apenas 10 mil anos e, a partir dai, descenderam todos os 7300 milhões de humanos que hoje somos.
     2 * (21/20)^451,28 = 7300 milhões
 
E o que nos dizem os cromossomas?
As nossas células têm 46 cromossomas que os filhos herdam dos pais, metade de cada um. Em particular, nós homens herdamos o gene Y do nosso pai.
Quer isso dizer que eu, sendo um homem, herdei o meu cromossoma Y do meu pai, do pai dele, do pai do pai dele, e por ai fora até Adão.
Mas o meu cromossoma Y não é exactamente igual ao do Adão bíblico porque sofreu mutações ao longo dos milénios.
O cromossoma Y é parecido com um fecho de correr com 60 milhões de "dentes" que têm uma de quatro cores possíveis. E, de vez em quando, acontece uma mutação nos dentes que se transmite à criança e, depois, aos seus filhos, netos, etc. para todas as gerações futuras.
Vamos imaginar que o D. Afonso Henriques, na concepção, sofreu uma mutação no seu gene Y, vou-lhe chamar H. Então, todos os seus descendentes homens e apenas esses é que terão hoje essa mutação. Se o D. Dinis tivesse tido uma outra mutação (D. Dinis é descendente de D. Afonso Henriques), vou-lhe chamar D, então, os descendentes de D. Dinis terão hoje as mutações H e D e os seus "primos" apenas terão a mutação H.
Como todos os homens partilham no cromossoma Y muitos genes e como se sabe a velocidade de mutação, podemos traçar um caminho evolutivo de cerca de 200 mil anos entre um individuo que viveu no sodoeste de África e todos os homens hoje vivos. Olhando para o cromossoma Y, podemos afirmar que todos nós homens descendemos de um único e mesmo homem.


 Adão "nasceu" no sudoeste africano há cerca de 200mil anos e, há cerca de 50 mil anos, os seus descendentes saíram de África para colonizar o Mundo (ver)
 

Mas onde fica a Teoria da Evolução das Espécies!
A Ciência afirma que as espécies não foram criadas por Deus como diz o Génesis mas evoluem num contínuo temporal. As mutações vão acontecendo, o ambiente vai seleccionando as melhores e, da mesma forma que vão aparecendo raças de cães, umas espécies acabam por aparecer a partir de outras espécies. Por exemplo, o cromossoma Y também existe nos macacos. 
Diz ainda Darwin que uma espécie nunca tem origem em apenas dois indivíduos mas sempre numa população. Então, se não podemos descender todos de apenas um casal de humanos, em Adão e em Eva, como é possível que todos tenhamos parte substancial do nosso cromossoma Y que é igual em todos os homens?

Tem a ver com a Estatística.
Vamos imaginar que naqueles 150 mil anos que a humanidade viveu em África, durante essas 7500 gerações, havia 2500 mulheres e 2500 homens que se cruzavam entre si. Então, mesmo que cada um  desses "homens iniciais" tivesse um cromossoma Y diferentes, porque alguns dos homens não tiveram filhos homens, em termos estatísticos, as "versões" foram-se extinguindo ao longo do tempo. Por exemplo, os meus pais tiveram 6 filhos, 3 homens e 3 mulheres mas, como nenhum de nós tem filhos homens, o cromossoma Y do meu pai não vai sobreviver (até ver ...). Já na forma do meu avô paterno, o risco do seu cromossoma Y desaparecer é menor porque tenho alguns primos que têm filhos homens.
Assim, mesmo havendo inicialmente 2500 Y's diferentes e 5000 pessoas e não apenas duas, passados 150 mil anos, todos os 2500 homens teriam cópias de apenas um dos cromossomas Y originais.
Para haver 2500 homens em reprodução, juntamente com as crianças, haveria entre 15 mil e 20 mil humanos. 

n.homens<-2500
n.geracoes<-7500
#Inicialmente, cada homem tem um Y diferente
Y<-sample(1:n.homens,n.homens,replace=TRUE)
#Passam n.geracoes
for (i in 1:n.geracoes)
    Y<-sample(Y,n.homens,replace=TRUE)
#Distribuição dos cromossomas sobreviventes ao fim das n.geracoes
table(Y)/n.homens

Até poderia haver mais pessoas.
Mas, se em populações separadas, o efeito seria o mesmo. Comparando com os crastos portugueses da Idade do Ferro, poderia haver clãs com 100 casais reprodutores que só esporadicamente trocariam homens com outros clãs.


Será que, analisando o nosso cromossoma Y ficamos a saber de onde viemos?
Mesmo sem fazermos qualquer análise existe a certeza de que os nossos antepassados maternos e paternos viviam, até há pelo menos 100 mil anos atrás, em África (e todos nós temos parentes africanos mais próximo na nossa ancestralidade).
Depois, analisando o cromossoma Y ficaremos a saber onde estava o nosso "pai" há 10 mil anos ou há 30 mil anos, em que continente vivia, se era preto (se vivia em África), branco (se vivia na Europa) ou amarelo (se vivia na China). Podemos até traçar o seu percurso desde Adão, ao longo dos milénios, até nós.


Afinal, o Adão bíblico existiu e está dentro de nós.
Mas nos nossos 75kg, só herdamos 1,5kg de Adão sendo que herdamos o resto do resto da humanidade.
É que o cromossoma Y só contém 2% dos nossos genes. Por isso, não vale a pena preocuparmos-nos em saber de onde vêm esses 2% de nós quando os outros 98% vieram de todas as outras partes do Mundo.

Finalmente, existe o "problema" neardental.
Há quem defenda que parte dos europeus, talvez 5%, veio do Homo Neardentalense.
Mas isso é uma esperança de fazer os europeus diferentes dos outros homens e não tem qualquer correspondência com a realidade.
Realmente, se partilhamos cerca de 98% dos nossos genes com os chimpazés (e 99,8% com outro qualquer humano distante), também devemos partilhar a grande maioria do nossos genes com o homo neardentalense.
Mas o certo é que nenhum humano herdou o cromossoma Y do homo neardentalense (ou alguma  das nossas mitocôndrias que são coisas que herdamos  da nossa mãe que herdou da mãe dela, etc.)
Se não herdamos nenhum gene do cromossoma Y nem das mitocôndrias, porque acreditar que herdamos outros genes?

Não, só podemos ter origens diferentes.

Pedro Cosme Vieira

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A geringonça e os tratados multilaterais

OK, o Costa diz que salvou o Banif.
E que, mais não fez que obedeceu às nossas obrigações para com os nossos parceiro da Zona Euro.
Mas eu estive a ouvir o Jorge Tomé, e fiquei convencido da seriedade do homem.
Segundo as suas contas o Banif não estava positivo em 200 milhões €. Assim, a posição do Estado adquirida por 825 milhões € ainda poderia valer cerca de 125 milhões€.
A injecção de 2200 milhões € é apenas um problema contabilístico que resulta de os activos não adquiridos pelo Santander Totta terem sido desvalorizados em 66,7%. Com o tempo, como esta desvalorização é artificial, não será preciso nenhum, ou quase nenhum, do dinheiro das garantias.
Mas hoje, dia de Natal, não era bem sobre isto que eu queria escrever mas sim sobre um e-mail que recebi com duas ideias para dinamizar a nossa economia.
O problema destas ideias é que têm problemas: violam acordos internacionais que assinamos. Não podemso dar subsídios nem isenções fiscais a empresas que estejam no mercado em concorrência com outras empresas. Podemos dar à Santa Casa da Misericórdia um subsídio para tratar dos velhinhos mas já não podemos dar subsídio às empresas portuguesas que fabricam fraldas para acamados.

1ª Proposta - Taxa de IRC Proporcional ao Impacto da Empresa
Em vez de diminuir ou aumentar a taxa de IRC para todas as empresas, criava-se um sistema em que a taxa de cada empresa fosse baseada em "pontos".
A empresa ganharia pontos positivos se tivesse um impacto positivo na economia (contratasse mais gente, se exportasse mais, se investisse mais em R&D, etc.)
Por outro lado, a empresa ganharia pontos negativos sempre que o seu comportamento fosse negativo para a economia (por exemplo, a ideia socialista da rotação excessiva de trabalhadores, muitos recibos verdes, etc.)
Na hora de calcular a taxa de IRC a pagar, se o saldo dos pontos fosse positivo, a taxa de IRC baixava:
  Taxa de IRC = 20% -Pontos
 
2ª Proposta - "Incentivo Fiscal a Investimento Directo Estrangeiro"
Para atrair investimento estrangeiro, oferecer isenções fiscais a empresas exportadoras criadas por investimento directo estrangeiro.
A duração da isenção de IRC e a validade do visto iriam variar conforme os seguintes factores: postos de trabalho criados, valor monetário do investimento, peso de R&D (Investigação e Desenvolvimento), e localização (quanto mais no Interior, melhor).
Para grandes investimentos feitos no Interior, sugiro que a isenção máxima pudesse vigorar durante mais de uma década, ou até duas, no caso do Interior mais profundo. Assim depois poder-se-ia anunciar internacionalmente que Portugal oferecia isenções de IRC que duravam até 20 anos, o que certamente atrairia a atenção dos investidores estrangeiros.

E para que servem os tratados multilaterais?
Imaginemos a famosas Taxinha inventadas pelo Costa que iria incidir sobre todos os estrangeiros que entrassem em Lisboa de Avião ou de Barco. O problema do Costa é que existe um tratado com os nossos parceiros europeus de que isso não pode ser feito, não pode ser aplicada uma taxinha baseada na residência da pessoa. Claro que podemos rasgar esse tratado mas, depois, a Espanha vai inventar uma taxinha de 100€ sobre todos os veículos estrangeiros que cruzarem o seu território! Todos os carros, camiões e autocarros portugueses que vão para a França teriam que pagar essa taxinha!
Também não podemos atrair empresas estrangeiras oferecendo-lhes reduções de IRC pois, o reverso, seria a Espanha retaliar convidando as empresas portuguesas a ir para o lado de lá da fronteira.
Então, uma redução de IRC tem que se aplicar a todas as pessoas e todas as empresas.
Não se pode ter bom tempo na eira e chuva no nabal!

Feliz Natal e Bom Ano Novo (é o que diz o texto em chinês). 
Se fosse agora, até fruta do Jorge Nuno viria da China.

Pedro Cosme Vieira

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Será que o Passos Coelho vai cair?

Hoje é o primeiro dia do resto da legislatura.
O PCP tem em cima da mesa um projecto de Lei em que são repostos integralmente os funcionários públicos cortados no governo PS do José Sócrates, coisa que o actual PS de Costa, seu parceiro de geringonça de governação, já anunciou que vai votar contra.
Se o PSD votar a favor a proposta de Lei do PCP, esta passa o que colocará problemas ao governo do Costa, demonstrando a instabilidade da geringonça.
O que será que vai fazer o Passos Coelho?

O que fazemos no Presente, tem influência no Passado.
Quando eu digo isto aos meus alunos, estes ficam confundidos, discutindo acaloradamente que isso não pode ser. É impossível que o que fazemos hoje tenha alguma influência no que fizemos no Passado porque isso já é passado.
Mas a Ciência Económica precisa como pão para o boca de que isto seja verdade.
Na discussão que levou ao derrube do XX Governo Constitucional, este "facto científico" esteve em discussão e o Costa apenas avançou para o derrube porque acreditou que isso não é verdade.

O que pensou o António Costa.
O CDS quer cortar 100,
O PSD quer cortar 80,
O BE, PCP e demais querem cortar 0.
Então se eu, Costa, apesar de ter perdido as eleições e não ter feito acordo com o PSD, se propuser cortar 70, os meus parceiros da coligação (BE, PCP e demais) vão votar contra mas o PSD vai votar a favor pois a alternativa é zero, muito pior.
Depois, os BE, PCP,... vão votar a favor do corte dos 70 porque a alternativa é "o governo da direita".

O que disse o Passos Coelho.
Nem pense nisso Sr. Costa.
Mesmo que o PS proponha cortar 80, nós votaremos contra.
E se o PCP propuser cortar zero, à revelia do PS, nós votaremos a favor.
Como nós vamos fazer assim, a sua geringonça governativa não tem qualquer viabilidade.
O Costa não acreditou na ameaça e avançou. Deu por escrito ao Cavaco garantias de estabilidade governativa porque acreditou que o PSD iria viabilizar as propostas do seu governo.

Hoje, chegamos ao Futuro.
Se o PSD votar contra a proposta do PC (ou se abstiver), a ameaça cai por terra e a previsão do Costa concretiza-se.
A partir de hoje, o PSD ficará refém do Costa cujo governo terá todas as condições para se transformar numa coligação de bloco central mas com o PS a malhar no PSD.
O futuro será o CDS+PCP+BE+ ... a votar contra o governo (46 votos), o PS a votar a favor (86 votos) e o PSD a abster-se (89 votos).
Passos, tens que mostrar coragem e votar sempre contra o PS e a favor das propostas de Lei do PCP que forem contra o PS pois, caso contrário, vais durar pouco tempo à frente do PSD.
Diz-te quem teu amigo é, o Rio já, esta semana, mostrou as garras.

Esta semana estive na farmácia.
A Cátia lá estava, mais magra, ainda mais jeitosa mas não é sobre isso que eu vou falar.
Eu fui lá comprar Sertopic e estava lá uma senhora que queria falar pelo que atacou logo com "Isso é para os fungos, é para os pés, eu apanhei isso no chinês, comprei lá uns sapatos, foi disso, apanhei os fungos no chinês!"
- Bem - disse eu - não apanhou isso no chinês mas sim nos pés. Mas no meu caso não é para os meus pés é para a minha ..., para a comichão ..., como é que hei-de dizer isto ... é para a minha ... mãe.
Muito me tenho rido com esta confusão de linguagem.
E a Cátia só se ria.


Pedro Cosme Vieira

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Como será o Mundo em 2115?

Para comemorar 10 anos, a fundação Champalimaud ...
organizou uma conferencia para tentar-se prever como será o mundo daqui a 100 anos.
Estavam lá pessoas importantes com, por exemplo, um ex-presidente da república português e outro brasileira, mas as ideias que apresentaram foram muito pobresinhas. Falaram do presente e mal.
O problema do debate é que o futuro não se prevê mas constroem-se o que faz com que as únicas pessoas que conseguem dizer algo sobre o futuro são os escritores de ficção.
Primeiro, alguém escreve um romance sobre um futuro longínquo onde coisas hoje impensáveis vão ser realidade. Depois, pela positiva (vamos fazer isto) ou pela negativa (isto nunca poderá acontecer) as pessoas vão-se esforçar para que o futuro aconteça.
Houve grandes nomes mas um dos mais importantes foi George Orwell com os seus Triunfo dos Porcos (1945, uma sociedade totalitária nascida da boa ideia de que, no futuro, seremos todos iguais) e 1984 (1949, outra sociedade totalitária nascida da ideia de que a informação irá acabar com todos os problemas do Mundo).
Se hoje existem limitações à recolha generalizada de imagens em espaço público, tal deve-se ao George.

Será o Futuro sair do caminho que estamos a trilhar ou seguir em frente?

Mas será que, nos próximos 100 anos o Mundo vai mudar assim tanto?
O problema é esse, é que ninguém prevê que aconteçam mudanças radicais.
Olhemos para há 100 anos, para 1915. É certo que estávamos a sair da Grande Guerra, havia fome generalizada pelo mundo, já circulavam automóveis pelas nossas estradas, os aviões davam os primeiros passos, o telégrafo era o único meio de comunicação rápida à distância, não havia auto-estradas nem televisão, morriam muitas crianças, mas, de facto, apesar de ter havido mudanças quantitativas  muito importantes, em termos qualitativos, a  vida não era diferente da que é agora.
Já naquele tempo as pessoas sofriam de neura, tinham problemas com os colegas de trabalho, os comunas queriam tomar o poder, havia necessidade de pagar impostos e as mulheres queixavam-se repetidamente de dores de cabeça.
Se o futuro do Mundo não for construido, ficará exatamente igual ao Presente, não faz sentido chamar pessoas intelectualmente limitadas para nos indicar o caminho pelo qual podemos ir.
Como já escrevi um livro de ficção, vou poder avançar alguns pontos onde penso que haverá pequenas mudanças.

Já D. Mafalda dizia ao D. Afonso Henriques que lhe doía a cabeça e assim será daqui a 100 anos.

A procriação.
Nesse meu romance proponho que, como no futuro ninguém vai querer ter filhos, a comunidade terá que criar pessoas, como já previsto no Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1932, num processo industrial. A questão que levanto é diferente da de Huxley porque me concentro na questão dos direitos de quem ainda não existe, da questão ética de ser imposto um contrato, com direitos e obrigações, a quem ainda não nasceu e que não nascerá se esse contrato não for "assinado" em nome da  futura pessoa. Quais são as condições que é aceitável impor a quem ainda não nasceu?
Em 50 anos, no Mundo o número de filhos por mulher desceu 50% e, no caso português, a redução foi ainda maior, de 60%.

O aquecimento global.
Não quero saber se o planeta está a aquecer ou a arrefecer, se o Mar vai subir ou descer pois tudo serão oportunidades para uns e ameaças para outros. Por exemplo, foi o final da última glaciação (a Wurm) que aconteceu há 18 mil anos que a humanidade (o homo sapiens, nós) conseguiu suplantar o Homo Deardenthal e pode, assim, invadir a Europa. Depois de 50 mil anos em que o clima foi altamente frio, em que a maior parte da América do Norte e da Europa estava coberta por milhares de metros de neve, incluindo Portugal, o gelo foi-se embora e o nível dos oceanos subiu 100 metros.
Esse aquecimento generalizado inundou o que hoje é a Grande Barreira de Coral (nas costas da Austrália) e tornou a Inglaterra uma ilha.
Há 5,6 milhões de anos, o Mediterrâneo chegou mesmo a secar! e tudo continuou como se nada tivesse acontecido (MSC).
Assim, se o mundo aquecer mesmo que sejam 10ºC, não é por isso que a humanidade se vai extinguir.

E a extinção das espécies?
Isto é uma discussão importante.
Todos os seres vivos têm por base informação genética. Mas, estranhamente, cada espécie não tem um conjunto único de genes mas apenas uma combinação particular.
Assim, os genes que eu tenho e que me programam para que eu seja como sou, existem espalhados um pouco pelos outros seres vivos mas em combinações diferentes.
Por exemplo, hoje falamos muito da extinção K-Pg de há 65 milhões de anos onde 3/4 das espécies de plantas e animais desapareceram, incluindo os dinausauros mas, primeiro, foi esta extinção que permitiu o aparecimento dos mamíferos onde nos incluímos e, segundo, as plantas e os animais representam uma pequena fração das espécies vivas (e que são depositárias de quase todos os genes criados ao longo de milhares de milhões de anos) pelo que a recombinação dos genes deu origem a outras espécies de plantas e de animais.
Mesmo que 99% das espécies de plantas e animais que conhecemos desaparecessem da face da Terra,  pelo menos 99,99% dos genes sobreviveria pelo que, rapidamente (em menos de 100 milhões de anos), novas espécies complexas tomariam o lugar das extintas.

O Mediterrâneo secou há 5,6 milhões de anos!
A passagem de Gibraltar fechou e o Mediterrâneo secou, descendo o seu nível 4000m (MSC).
E este grave acidente deu origem a uma cadência de acontecimentos que, algures na África Austral, fez com que alguns macacos se tenham tornado mais espertos e transformado em hominídeos.
Talvez!

A energia.
O que me "preocupa" é que o nível de vida está muito dependente do acesso barato a energia. Aos preços actuais, cada habitante da Terra consome uma média de 2,3 KW e cresce 1,5%/ano. Se a tendência de crescimento se mantiver, em 2115, cada pessoa irá precisar de 10 KW de energia, cerca de 200000 kcal por dia que equivale a 50 kg de madeira por ano.

O efeito fotovoltaico.
A capacidade dos fotões criarem um corrente elétrica foi primeiro observada em 1839 (por Becquerel que construiu a primeira célula solar), foi teorizado em 2005 (por Einstein, de que resultou ganhar o Prémio Nobel de 1923) e, até aos anos 1950, não passou de uma curiosidade científica.
Em 1992 a potência instalada atingiu 100 MW (o equivalente à potência nominal de 1/10 de uma central nuclear) e, desde então, tem multiplicado por 10 a cada 7 anos, estando actualmente em 233 000MW (o equivalente à potência nominal de 250 centrais nucleares).
A boa notícia é que, segunda uma lei empírica, cada vez que a potencia instalada aumenta 1000 vezes, o custo diminui 10 vezes (Lei de Swanson).
A boa notícia é quem juntando as duas tendências, vemos que o custo das células fotovoltaicas diminui cerca de 8%/ano, a má notícia, é que, além da células fotovoltaicas, existem outros custos que não diminuem assim tão depressa.
Claro que o problema da potencia instalada solar é que, em média, só há 6 horas de luz solar por dia e o rendimento da transformação anda nos 10% pelo que dos 233 00MW resultam apenas o equivalente a 5 centrais nucleares.


Façamos umas contas.
A luz solar tem 1,0kwh/m2 de potencia. Com um rendimento de 10% e 6h de luz por dia, daqui a 100 anos serão precisos 400m2 de painéis solares por cada pessoa então vivente.
Como os painéis têm espaço entre eles para a sombra, apontemos para 800 m2/pessoa
Se, nesse tempo, houver a mesma população que agora, 7300 milhões de pessoas, haverá necessidade de 3 milhões de km2 de painéis solares dispostos num território com 6 milhões km2.
Uma Europa Ocidental com 730 milhões de pessoas precisará de uma área de 600 mil km2, menos de 10% da área do Deserto do Saara.

Nada do que eu disse é radicalmente diferente do que conhecemos.
Daqui a 100 anos, as pessoas continuarão a andar de automóvel, a viajar em aviões Airbus e Boeing, a beber Coca Cola e Pepsi, continuará a haver Vinho do Porto, Queijo Camamberg, controle do álcool,  fumadores, drogados e as mulheres continuarão a tomar aspirina para aplacar as dores de cabeça.
Vamos imaginar que qualquer um de nós tinha a capacidade para adormecer hoje e acordar daqui a 100 anos. Passado um mês, já nem dávamos conta das mudanças que tinham acontecido entre 2015 e 2115.
Ou será que a minha imaginação é fracota?

Pensando melhor, provavelmente, em 2115 as mulheres boas vão ter este aspecto!

Pedro Cosme Vieira 

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