sábado, 9 de julho de 2011

Porque existem casas de rating?

Portugal caiu numa categoria de risco da "metade de baixo" da tabela que, em termos correntes, se diz "lixo".
Continuamente pessoas falam na comunicação social sobre o assunto. Mas só asneiras.
Desde o Presidente da República ao sr. do café, é só asneirada. Então, também tenho direito a dizer o que me venha à cabeça sobre o assunto.
Se eles não têm vergonha de não dizer coisa com coisa, eu também não tenho.

A origem do conceito.
O crime mais grave que um judeu pode cometer é enganar outro judeu. Diz a Tora que é tão grave que fica condenado à danação eterna.  Que é pior que ter nascido aborto. Que terá que ser destruído juntamente com tudo em que tocou.
Se um judeu vai pedir dinheiro a outro judeu tem que o informar das adversidades que a sua vida pode vir a sofrer e tem que lhe dar uma ideia da probabilidade de não poder pagar a dívida.
E deve lutar com todas as suas forças para que o fracasso não se materialize.
E os seus filhos ou netos devem, se o puderem fazer, cumprir para com os filhos ou netos do credor sem estes alguma vez o pedirem.
Mas se acontecer uma adversidade, entrega-se á vontade de Deus pois os homens esforçaram-se o quanto sabiam e podiam.
Fig. 1 - Pessoas a circular assim numa rua de NY, devem ser ... sérias

Mas quando um judeu negociava com um "estrangeiro", podia ser enganado.
Por exemplo, um joalheiro (que vem de judeu) só podia confiar o ouro a outro judeu. Um "estrangeiro" ficaria tentado a roubar na liga, a levar umas limalhas, umas pedritas.
Mas há "estrangeiros" sérios. Para a comunidade poder expandir o seu mercado, tornou-se necessário resolver o problema da identificação dos "estrangeiros" sérios.
A solução foi encontrar um judeu qualquer, o "padrinho", que conhecesse ou investigasse o "estrangeiro" de forma a poder dar uma opinião sobre a sua credibilidade.
É UMA OPINIÃO mas dada como toda a seriedade a que a Tora obriga.
O "padrinho" não diz as suas fontes de informação nem os modelos utilizados. Diz apenas uma escala da credibilidade do "estrangeiro" o melhor que puder fazer e com toda a confidencialidade.
Nunca mais se fala do assunto.

A criação do negócio.
Todas as empresas têm segredos. Medicamentos que estão a desenvolver, armas que estão a testar, clientes que não querem revelar o nome, etc. Se os segredos de uma empresa forem revelados, o mais certo é que sejam copiados e a empresa falhe.
Mas as empresas precisam de se financiar sem revelar as suas forças e fraquezas porque são segredos fulcrais. Num mundo de confiança absoluto porque baseado no castigo de Deus, o empresário dizia que o assunto era reservado mas que a empresa tinha 80% de probabilidade de vir a ter sucesso, e os credores aceitavam como verdade.
Na Biblia, a "passagem do Tomé" é referida porque é gravíssima: um judeu, Tomé, desconfia publicamente da palavra de outro judeu, Jesus.
No mundo cão em que vivemos, a palavra não vale nada.
Como todas as empresas dos "estrangeiros" precisavam da acreditação com sigilo, os "padrinhos" começaram a trabalhar para o exterior.
Assim, começam a surgir as casas de rating.

E porque são americanas?
Até ao XIX, na Europa Central não havia países. Como?
Sim. Numa zona maior que França, havia um rendilhado de aldeias, vilecas e cidadezecas, umas alemãs, outras polacas, outras húngaras, outras russas, umas protestantes, outras católicas, outras judaicas, tudo como um rendilhado. Uma multiplicidade de línguas, povos e religiões que pertenciam a um de vários império e esse domínio estava sempre a mudar.
No Sec. XIX os impérios (Francês, Russo, Sueco, Alemão e Austro-Húngaro) começaram a comprimir essa zona com guerras modernas, inventou-se a artilharia.
Então, foi como apertar a pasta de dentes: milhões de pessoas tiveram que partir e foram para os EUA que se estava a expandir para o West. Comunidades inteiras judaicas foram parar no meio de Nova York, levando todas a sua estrutura social.
Ai está: os avaliadores também foram.
As agências de rating estão na América porque foram destruídas na Europa.


Fig. 2 - Por exemplo, a Prússia era um estado não contíguo, multi-étnico e multi-linguístico


E porque a minha agência de rating não tem clientes?
Desde que existem,  na forma profissional actual ou nos "padrinhos" precursores, já lá vão centenas de anos e nunca houve uma fuga de informação.
Nunca uma empresa confiou um segredo a uma destas agências de rating e esse segredo veio a ser conhecido por uma fuga na agência. Nunca. Nem se põe essa hipótese.
Nem sobre tortura. Nem que os matassem. Dali nunca saiu nada.
Essa reputação demorou centenas de anos a desenvolver. E não é agora por eu dizer que sou muito sério que alguém vai confiar.
Muitas vezes, são assuntos de vida ou de morte.
Eu, o Alberto João, o Faria de Oliveira, o Cavaco e tantos outros, não temos qualquer credibilidade.

Fig. 3 - Vale Zero. O que dizemos é lixo. Zero vírgula zero.


E as avaliações erram?
Em teoria, nunca erram porque não são certezas absolutas e são feitas sobre o futuro que é incerto e desconhecido.
Eu ir ao médico e ele dizer que está tudo normal e eu morrer passado 5 minutos, calhou. É normal morrer. O médico fez o melhor que sabia com a informação que tinha. Se a probabilidade de eu morrer era 1 num milhão, aconteceu esse 1. Não errou. Aconteceu.
Dizerem que umas empresas americanas eram sólidas e estas terem falido passados uns dias, não quer dizer que tenham falhado. A opinião é uma probabilidade subjectiva dada com todo o zelo.
Pode sempre acontecer algo muito adverso e muito raro, como em Fukushima: uma empresa sólido, faliu.
Mas no caso, ainda complicou o facto dos gestores serem desonestos.
As casas de rating, mesmo tendo actuado com zelo, não conseguiram descobrir as trafulhices.
Nunca é possível afirmar que uma casa de rating tenha falhado. Nunca se põe essa hipótese.
É a reputação que diz que não podem errar.


Nada mudou e o rating de Portugal caiu porquê?
Muita coisa mudou mas vamos supor que não.
Eu posso estar tal qual estava ontem, mas o médico foi entretanto fazer uma autópsia e viu que um sinal idêntico ao que eu tenho na nádega é o estádio inicial de um cancro muito agressivo. Sem fazer novas análises, telefona-me a dizer que a minha situação passou de normal para doença muito grave. Que tenho que ser imediatamente internado no IPO.
Eu não mudei mas mudou a forma como o médico entende o mundo.
A Islandia ter falido, alterou completamente a forma como os países pequenos da OCDE passaram a ser entendidos. Afinal é possível um país da OCDE falir.
A Grécia estar em falência total indica o nosso futuro a curto prazo.

E quais os dados que eles usaram?
Quando vamos a um médico, confiamos no que ele diz ou não vamos lá. Nunca lhe perguntamos pelos dados que usou, pelos modelos que estimou ou pelos livros em que ele estudou. É a nossa confiança na sua opinião e mais nada.
Quando o meu pai me disse, "-meu filho nunca jogues a dinheiro, nunca". Eu não lhe perguntei no que se baseava para dizer isso. Confiei e até hoje, nunca joguei.
Será bom jogar? Será que faz mal? Será que o meu pai estava enganado? Não sei, nunca experimentei nem penso experimentar. E digo a toda a gente que não o deve fazer. Confiei.

Terá o Rio, o Costa e os outros razão?
O risco dos Estados é uma coisa e o risco das empresas é outra.
Uma classificação para uma empresa AAA é pior de uma classificação ABB para um Estado.
Os Estados têm sempre menor risco.
Por isso, uma empresas classificada lixo tal como Portugal,  tem um risco muito maior.
Essas empresas públicas e autarquias, se Portugal entrar em bancarrota, abrem logo falência.
Têm verbas próprias? O tanas.
No memorando já fala no IMI ir para o Estado Central. Quando a coisa for a doer, vão ver as receitas próprias por um canudo.
Quando não houver dinheiro para gasolina nem comida, acreditem que as vossas receitas continuam a pingar.

Fig. 4 - Fia-te que esta é a Virgem e não guardes a carteira

Portugal vai falir?
Os velhinhos anafabetos estão a levantar o dinheiro dos Certificados de Aforro à força toda. Estão a voltar a guardar o dinheiro debaixo do colchão.
Na opinião do povo ignorante que já viviu muito, Portugal vai falir a curto prazo.
Devemos confiar na sabedoria dos velhinhos analfabetos ou dos sábios indignados? 

E os analfas sabem muito.
Tinha eu acabado de fazer a 3ª classe e fui gabar-me a casa do meu vizinho velhote Ti Durbalino.
Ai chegaram dois senhores engravatados e começaram a falar.
- Este colchão é muito bom, blá, blá, blá, faz bem à coluna, blá, blá, blá.
Passados uns 10 minutos, o Ti Durbalino arrancou:
- Os senhores, se fazem favor, mostrem as palmas das mãos.
-Hummmm, não têm calos e têm boas roupas. Óra os senhores ganham a vida com a conversa.
- Se cada um de nós pegasse numa enxada, eu ganhava. Com conversa, eu perco. Já só me apetece comprar o colchão. Tenho mesmo que o comprar.
- Mas antes têm que ir dizer esta conversa com uma pessoa de minha confiança que também não tem calos e vive bem. Nessa casa aí acima vive o presidente da junta, um rapaz fino que andou a estudar para padre. Vocês vão lá e eu vou estar atento à janela. Assim que ele esteja convencido, vem à janela e grita para aqui para eu comprar. Depois, vocês vêm cá e levam a massa.
- Mas, se não me enganar muito, nem vocês vão lá nem voltam cá. Pois já cá vieram muitos e nunca o rapaz veio dizer nada à janela.
- E sabem, eu confio mais nele do que confio em mim.
- Meus amigos, vão-se emborinha pela sombra e não impessem em nada.
Ali estava, na sabedoria popular, a semente das agências de rating.

Fig. 5 - Vejo que a menina tem bom futuro. Tem uma boa enchada.

Pedro Cosme Costa Vieira

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