quarta-feira, 10 de junho de 2015

11 - A multiplicação

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (10 - O almoço)  


11 – A multiplicação
O Padre Augusto sentia-se obrigado a dizer aos seus paroquianos que tinham que dar cumprimento ao mandamento divino “Crescei, multiplicai-vos e povoai o Mundo” mesmo que as crianças, se não morressem ainda pequeninas da doença e por causa da fome, estivessem condenadas a uma vida de trabalho penoso, perseguição e miséria. Por esse mandamento ter repetidamente resultado em tragédia, depois do almoço, contrariamente à habitual recolha para meditação, decidiu ir conversar um pouco com o Dr. Acácio sobre o que a Ciência tinha a dizer sobre o assunto. Pôs o seu chapéu preto e lá foi rua fora pelos caminhos estreitos da aldeia vestido com a batina preta que esvoaçava ao vento, absorvido pelos seus pensamentos. “A sua bênção Sr. padre” – dizia quem passava a quem o padre fazia o sinal da cruz com a mão direita e respondia “Dominus vobiscum”. Depois de uns minutos de caminhada, chegou ao consultório do Dr. Acácio, bateu à porta que estava aberta e entrou.
Salve – o Padre Augusto gostava muito de usar o latim.
– Boa tarde Sr. Padre, entre, entre que ainda estou a pensar naquela criancinha. Coitada dela e da mãe pois também deve ser terrível ver um filho tão pequeno morrer naquelas circunstâncias. Com esta idade habituei-me a estas tragédias que estão sempre a acontecer mas causa-me sempre algum desconforto. Quando era mais novo tinha relutância em passar a certidão de óbito com uma causa de morte inventada mas agora, vendo o sofrimento da mãe, deixei-me disso, além do mais, em termos médicos não havia nada que pudesse ser feito. E, no fundo, morrer por causa da fome ou do tifo não é diferente de morrer por causa dessa doença maldita, é tudo morrer. Agora que já vi tanta coisa, preocupo-me mais com a mãe e com as crianças que ficam vivas, saber se têm o que comer e, por isso tudo, mais uma vez passei a certidão de óbito a dizer que tinha sido um desarranjo intestinal, a nossa conhecida Febre Tifóide.
– Também acho que fez bem. Acaba por ser contrário ao mandamento “Não matarás” mas isso são contas a acertar um dia no futuro directamente com Deus. Eu também vim cá hoje por causa da morte daquela criança. Uma morte é sempre uma morte mas a de uma criança e por acção da própria mãe é muito mais terrível. O problema maior é que também me sinto responsável por estas mortes pois, mesmo sabendo que os filhos destes pobres estão condenados à perseguição, à miséria e ao risco da doença, estou obrigado pelas Sagradas Escrituras a transmitir-lhes uma mensagem de esperança, tenho que lhes dizer que têm que pôr o futuro nas mãos de Deus, que tudo vai correr pelo melhor e que pecam gravemente se decidirem não ter filhos. Depois, quando uma criança morre porque nasceu com a doença, não me sobra outro remédio que não seja dar a absolvição a quem a pedir e carregá-los com mais do mesmo, mais “Crescei e multiplicai-vos”.
– Sim Sr. Padre, em termos bíblicos a sua estratégia não é errada de todo, matam um mas têm que ter três ou quatro para que o saldo, na óptica das almas, seja positivo.
– Pois é essa a ideia que retiro das Sagradas Escrituras, que é melhor nascerem 4 e morrem 1 do que nascer apenas 1. Bem sei que esta moral pode cair no pensamento maquiavélico de que os fins justificam os meios mas não vejo que alternativa tenho, a criança já está morta, o que mais posso eu fazer?
– Nada.
– Pois é exactamente isso que eu penso, cum finis est licitus, etiam media sunt licitaMas o que eu quero ouvir da boca do Dr. Acácio é algo diferente, damos deixar a moral pois o quero saber é o que a Ciência tem a dizer sobre isto, sobre o mandamento “Crescei e multiplicai-vos”. Não seria melhor eu dizer às pessoas, porque são tão pobres e as crianças nascem condenadas à miséria, para não terem tantos filhos? Terem um ou dois e pronto. Ou será que se encontra na Ciência alguma lógica para este mandamento?
– Sabe, Sr. Padre, eu também já pensei muito nisso e cheguei à conclusão que sim, que à luz da Ciência este mandamento faz todo o sentido, mas não é tanto em termos individuais, dos pais e dos filhos que nascem, da miséria das suas vidas, mas em termos de dinâmica dos povos. Sabe que a decisão de nascer é sempre egoísta já que todos os pais têm a esperança de que a criança melhore as suas vidas em termos materiais ou em termos do outro mundo, pensam que dando cumprimento a esse mandamento de Deus lhes vai trazer vantagens depois da morte. Mesmo quando não têm filhos com o argumento de que não os querem expor a uma vida de miséria quase certa continuam a ser egoístas pois ter um filho a viver em condições degradantes causar-lhes-ia desconforto.
– Sim Sr. Dr., mas quem quer cumprir os mandamentos é obrigado a ter filhos, não é por sua própria vontade, sou eu que o imponho ...
– Sim e não, o que o Sr. Padre faz é, na sua fé, mostrar-lhes que, não dando cumprimento ao mandamento, ficarão condenados à perdição eterna. Sem fé na eternidade, os pais têm um filho quando o custo de criar a criança é mais que compensado pela alegria de a ver crescer e pela ajuda que receberão dele na velhice mas, com fé no mandamento, o Padre Augusto acrescenta aos pais um benefício, dá-lhes a possibilidade de, no outro mundo, serem beneficiados. Então, quem acredita que tem o dever de cumprir o mandamento, terá mais filhos porque tem um duplo benefício, o benefício terreno e o benefício divino.
– Realmente, dá-me a ideia que isso é verdade, as pessoas acabam por ter muitos mais filhos do que teriam se eu não houvesse o mandamento. Mas continuo com as minhas dúvidas, de que vale ter tantos filhos se os estão a condenar a uma vida de miséria?
– Claro que isso é verdade, mas, se não fosse assim, no passado ninguém teria tido filhos. Vamo-nos colocar no tempo em que o mandamento foi escrito, talvez há uns 5 mil anos atrás, tempo em que, além de morrer muita gente de doença e de fome, a humanidade era de uma crueldade inimaginável, as pessoas de cada povo tentavam constantemente massacrar e escravizar as pessoas dos povos vizinhos. Como nas constantes guerras de atrito a maioria dos jovens era morta ou reduzidos à escravatura, sem mandamento a vontade dos pais não seria suficiente para repor as pessoas que morriam.
 – Não tinha pensado nisso que, nos tempos antigos, o sofrimento era ainda maior do que o actual e, mesmo assim, as pessoas tiveram filhos.
– Exactamente, mas apenas tiveram filhos em número suficiente para fazer face às perdas porque lançaram mão do mandamento “Crescei e multiplicai-vos” que era a “corrida ao armamento” da antiguidade. Se um povo se reproduzisse menos que o vizinho, teria menos soldados e, mais cedo ou mais tarde, seria subjugado, condenado à escravatura e ao desaparecimento.
– Interessante esse ponto de vista da Ciência.
– Sim, sim, mas vamo-nos concentrar nesta aldeia perdida aqui no meio do Monte. Quando foi fundada tinha algumas centenas de pessoas e hoje já tem quase 10 mil habitantes.
– Sim, o Sr. Dr. deu uma volta total ao que eu pensava, um conclusão interessante e contrária ao que eu sempre pensei, eu pensava que o mandamento estava a condenar as crianças à miséria mas está a contribuir para que o povo se torne cada vez mais forte. Mas, realmente, não deixa de ser egoísmo pois estamos a obrigar a que nasçam crianças condenadas à miséria.
– Sim, é verdade, mas os povos têm que se projectar centenas de anos no futuro e não apenas para a próxima geração. Repare que se uma das gerações achar que não vale a pena ter filhos porque os tempos são difíceis, o povo fica sem futuro, desaparece da face da Terra. Se algures no passado as pessoas tivessem decidido não ter filhos para não os condenar à miséria, quantas pessoas do seu povo haveria hoje?
– Bem, naturalmente que não haveria nenhuma e eu não teria chegado a nascer. Os registos paroquiais dizem que, contando com as crianças, há 150 anos vieram para cá 290 pessoas fugidas do Vale e agora já somos quase 10 mil pessoas. Pensando nestes números tenho que concordar que cumprir o mandamento não só favoreceu a defesa como, por causa do foral, reduziu mesmo os impostos que as pessoas actualmente pagam.

– Está a ver como me começa a dar razão? Mesmo com as perseguições, os desaparecimentos e as mortandades, o seu povo conseguiu prosperar porque a maioria das pessoas manteve ao longo das gerações o comprometimento com o mandamento “Crescei e multiplicai-vos”.

Capítulo seguinte (12 - O foral)

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