quarta-feira, 3 de junho de 2015

9 – A substituição

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (8 - A revelação)  


9 – A substituição
A mãe continuou.
– Eu sentia uma revolta interior que não parecia poder ter fim. Não compreendia porque Deus me tinha feito tamanha maldade. Ai, a tua avó disse que aquela revolta passaria se eu me fosse confessar, que o meu problema não era diferente do das outras pessoas e que o Padre Augusto, falando com o Espírito Santo, encontraria uma solução. E eu assim o fiz, um dia fui pedir ao Padre Augusto para me confessar mas a coisa não foi fácil porque eu não aceitava o que Deus me tinha feito. Cheguei lá e disparei logo “Sr. Padre, eu afoguei o meu filho, ele tinha a doença e eu tinha que olhar primeiro pelo meu marido e pelos meus outros filhos, se Deus não gosta é problema Dele.” Mas o Padre respondeu deferente do que eu tinha antecipava, em vez de me recriminar, foi compreensivo, “Minha filha, eu compreendo o teu desespero, sabes que fizeste mal, que quebraste os mandamentos mas, ao menos, estás arrependida”. O problema é que eu não estava arrependida, nem um bocadinho pelo que voltei ao ataque: “Não, nem pense nisso, nem acho que fiz mal nem estou arrependida do que fiz. Quem deveria estar arrependido era o Sr. Padre que me obrigou a ter filhos quando já sabia que poderiam nascer doentes e, depois, Deus pois tinha o poder de o evitar e não o fez. Afoguei-o e, se fosse hoje, tornava a afogá-lo, não me arrependo de nada, de nada mesmo. Bem sei que me vai dizer a mesma lengalenga que disse à minha irmã Júlia, mas não vale a pena perder o seu tempo porque já basta a miséria a que Deus me condenou. Como sei que não me vai dar absolvição, o melhor é mandar-me já embora.”
– E, então, a mãe ficou com a sua alma perdida para todo o sempre!
–– Realmente o Padre Augusto não me deu a absolvição. Disse “Como não te mostras arrependida, tenho que aguardar pela inspiração do Espírito Santo. Por agora, vais ali ao altar rezar três Avé-Marias e um Padre-Nosso pela alma da tua criança e vai-te em paz que eu depois digo-te o que o Espírito Santo me disser.” Eu fui-me embora convencida de que nunca mais teria perdão e, por isso, deixei mesmo de aparecer à missa. Já que a minha alma estava perdida, seria um perdição completa.
– Mas agora a mãe vai à missa!
– Exactamente porque, passados uns dias, o Padre Augusto apareceu aqui em casa, entrou de mansinho por essa mesma porta e disse “Estive a ler, rezar e meditar à espera da inspiração do Espírito Santo e hoje essa inspiração chegou. Agora, espero que aceites a penitência que terás que cumprir para que Deus te perdoe.” Eu não acreditei que viesse dali nada de surpreendente mas decidi-me a ouvir ouvi calada, a ver o que o Padre ia dizer. Eu nem acreditava que o Espírito Santo tivesse falado com o Padre Augusto quanto mais que o Espírito Santo poderia ter encontrado uma solução para a minha alma perdida. “Afogaste a tua criança porque não querias sofrer o que a tua irmã sofreu, mas agora também vais ter que sofrer mas de forma diferente, de uma forma mais produtiva. Para ultrapassares esse teu pecado, essa tua monstruosidade da qual dizes não teres sido tocada pelo arrependimento, vais cumprir o mesmo que os outros, nem mais nem menos, pois se não estás arrependida é porque Deus não o quis, vais ter que ter mais 4 filhos. No fundo, o Espírito Santo fez-me ver que o não teres sido tocada pelo arrependimento é, já de si, uma penitência muito dura pelo que não te pode ser exigido mais do que é exigido aos outros, aos que se arrependem. Vais à igreja e prometes perante Deus que vais cumprir esta penitência e serás perdoada, a tua alma votará ao caminho da salvação, assim me disse o Espírito Santo e assim será.”
– Mas a mãe disse que não, sabendo que eles poderiam nascer doentes, a mãe não podia aceitar ter mais filhos. Eu também disse que ia ter mais 4 filhos mas não estou a pensar em cumprir a promessa!
– Realmente, na altura eu tinha decidido que o melhor era não ter mais filhos mas, se o próprio Espírito Santo tinha dito ao Padre Augusto que eu ficaria perdoada se tivesse mais 4, eu só tive que cumprir a minha penitência. E tu também o terás que fazer, se prometeste perante Deus, tens que o cumprir.
– Teve então mais filhos?
– Claro que tive, então se tens 8 irmãos é porque eu tive filhos. Repara as voltas que o destino dá, passado um ano tive um filho rapaz a que dei o nome de Joaquim, é este o irmão a que te referes, dei-lhe o mesmo nome para que mais ninguém se lembrasse de que tive outro que morreu. Depois tive outro rapaz e o terceiro foi uma rapariga, nasceste tu.
– Eu?
– Sim, tu. Agora pensa bem, tu apenas nasceste porque eu matei o Joaquim e o Padre Augusto ou o Espírito Santo, nem sei bem quem, me aplicou como penitência eu ter mais 4 filhos. Se não fosse eu ter matado o Joaquim, tu nunca terias chegado a nascer, terias sempre ficado no céu dos pardais, perdida no ventre da galinha. Tu fazes parte da minha redenção.
A Maria Zé ficou calada, a pensar, sem querer acreditar, “Se não fosse a morte desse Joaquim, eu nunca teria nascido. Foi preciso a minha mãe matar o meu irmão para que eu pudesse estar viva. Eu sempre pensei que tinha nascido da vontade dos meus pais quando, afinal, nasci para redimir um pecado hediondo.”
– Agora já estás calada mas vais ter que dizer alguma coisa. Diz lá se fiz bem ou mal, vamos fazer o tempo andar para trás, para aquele minuto em que eu estava a afogar o teu irmão Joaquim com as próprias mãos, naquele minuto o que me dirias? Mata-o e faz com que eu nasça ou salva-o e deixa-me no céu dos pardais? Vá lá, ainda há pouco estavas com tantas certezas, responde-me agora, fiz bem ou fiz mal?
– Bem, agora já não sei, é um choque saber que nasci porque a mãe matou esse meu irmão. Agora, eu ter que dar a minha vida em troca da desse meu irmão que nem cheguei a conhecer? Eu quero dizer que, nesse minuto, diria “Salva-o” mas amo a minha vida demais para o garantir que o diria mesmo.
– Então agora já não és tão rápida a julgar-me, perdeste o pio?
– Não é isso, é que fiquei confusa por um mal dar origem a um bem, a morte de alguém ter dado origem à minha vida. Mãe, tenho que aceitar que, pela minha parte, fez bem porque eu não trocaria a minha vida pela de mais ninguém. E, além do mais, a sua vida teria sido de sofrimento e curta.
– Então já me estás a dar razão?
– Em parte sim. Mas, pensando agora no facto de a penitencia a ter obrigar a ter 4 filhos e de ter tido mais, talvez eu não resulte apenas desse seu crime, talvez eu resulte da vontade de Deus.
– Pois foi, tive mais filhos mas a causa continuou a ser a maldita doença. É que, depois de nasceres, tive a quarta criança da penitência, a Catarina. Senti-me finalmente redimida do meu pecado e o Padre Augusto também. Disse-me ele que, depois do que tinha acontecido à Júlia, também se sentia mais aliviado por, comigo, tudo ter corrido pelo melhor. Fez um baptizado especial, com cantoria e sermão e até me ajudou nos bolinhos de bacalhau e no vinho. Foi uma festa bonita de que não te lembras porque eras muito pequenina, ainda mal andavas.
– Não mãe, eu lembro-me mesmo da minha irmã Catarina pois ainda é viva ... ou será que era outra e deu o mesmo nome a esta que eu conheço?
– Pois foi. Como já tinha tido os 4 da penitência, com os teus dois irmão mais velho, já somava 6 crianças para criar pelo que, na altura, não pensava mesmo ter mais filhos. Já tinha tido mais do que pensava ser possível criar com os poucos rendimentos que tínhamos mas a maldição não mo permitiu. Com o passar dos meses, a Catarina tornou-se cada vez mais parecida com o Joaquim de forma que fui mostrá-la ao Dr. Acácio que empatou, engoliu em seco e apenas disse “Está um pouco atrasada para a idade mas há crianças mais atrasadas e outras mais adiantadas que não deixam de ser normais”. Vi logo que ele tinha medo que eu lhe fizesse o mesmo que tinha feito ao outro. Esperei um mesito, cheia de esperança de que não fosse a doença mas, como com o passar do tempo a criança ia ficando cada vez mais atrasada, um dia enchi-me de coragem e, de manhã cedo, apliquei-lhe o mesmo tratamento que tinha aplicado ao outro, levei-a até ao ribeiro e afoguei-a. Por ser a segunda criança a morrer-me nas mãos, as pessoas pareceram ficar meio desconfiadas mas ninguém disse nada porque, no fundo, compreendiam o que se tinha passado. Apenas o teu pai, depois do funeral, chegou a casa um bocado tocado pelo vinho e disse-me “Mulher, uma criança à tua guarda morrer afogada é um acidente mas duas já me parece desmazelo”. Eu só lhe disse “Preferias que te acontecesse o mesmo que aconteceu ao teu primo, ao marido da minha irmã Júlia?”. Calou-se até hoje. Depois, eu já sabia que tinha que começar tudo de novo, aceitei nova penitência, mais 4 filhos para substituir a que tinha matado. Parecia que Deus se estava a rir de mim, quando estava quase livre, atacou-me outra vez mas eu não dei parte de fraca, virei-me para Deus e disse-Lhe “Não penses que vou desistir, hei-de cair e tornar a levantar-me vezes sem conta. Se a penitência é ter filhos, toca a ter filhos mas, aviso desde já, se mos mandares avariados devolvo-Tos mais depressa do que o Diabo pisca o olho. Não vou quebrar.” Na altura eu tinha 30 anos, 5 filhos vivos para sustentar e mais 4 para fazer nascer. Era muita carga para uma família que vivia na maior das pobrezas mas eu só pensava “Mais vale um pobre vivo que um rico morto”. A primeira criança desta segunda penitência nasceu saudável mas a segunda também precisou do tratamento. Como ainda me faltava cumprir duas crianças, o padre Augusto disse-me “O Espírito Santo sabe que já sofreste muito pelo que, por esta, faz-te um desconto” e só me obrigou a ter mais uma criança a somar às 2 que ainda me faltavam. Como estas 3 crianças nasceram saudáveis, fiquei-me pelas 9 que tenho vivas mais as 3 que afoguei. E, no fim, Deus ajudou-me porque, mesmo com muita fominha, sobreviveram todas.
– Mas mãe, estou a ver que é isso que me vai acontecer. Agora tenho que ter mais 4 mas, como um deles pode nascer doente, depois são mais 4 e mais 4 até não ter mais fim.
– Não filha, também não exageremos. Pelo que eu sei, quando a pessoa chegar a 12 filhos, o Padre Augusto diz “Já tiveste tantos como Jacob” e fica-se por ali. Como vês, eu tive 12 e fiquei-me por ali. Foram muitos mais do que eu queria ter quando me casei, tinha pensado ter 2 ou 3 filhos, mas o destino obrigou-me a criar 9 e a ter que afogar 3 com as minhas próprias mãos. Foi uma vida muito difícil mas não me arrependo de nada do que fiz porque considero que foi tudo vontade de Deus a quem agradeço tudo o que tenho. Vivi muitos dias de fome e de frio, muito castigada pela Natureza e por Deus mas nunca quebrei a minha força de viver. Apenas posso garantir que, se fosse hoje, tornaria a afogar os que afoguei e a criar os que criei. Espero que a história da minha vida te tenha feito ver que a morte do teu Simeão não foi nada que já não tenha acontecido a outras pessoas, não é mais que o preço que temos que pagar para sermos diferentes e, quando tiveres as tuas 4 crianças da penitência, vais ver que valeu a pena. Agora vou acabar de fazer o almoço que esta conversa abriu-me o apetite.

A Maria Zé ficou a pensar. Se a mãe não tivesse, há vinte e tal anos, afogado o tal Joaquim, hoje, nem ela nem os irmãos mais novos estariam vivos. Se uma vida não tem preço como se poderia comparar a vida das três crianças doentes que morreram afogados com as vida dos 7 saudáveis que nasceram para os substituir? Parecia-lhe mesmo uma comparação impossível de fazer até porque era uma das 7 crianças que nasceram em substituição das que foram “devolvidas ao Criador” pela mãe.

Capítulo seguinte (10 - O almoço)

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