quarta-feira, 24 de junho de 2015

15 - A recusa

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (14 - A existência)    



15 – A recusa
A Maria Zé começou logo a tentar dar cumprimento ao que tinha prometido a Deus e, passado uns meses, a tentativa deu resultado: nasceu um menino que, por conselho da mãe, tomou o nome do seu irmão que tinha morrido no defumadouro, Simeão, para que nunca mais houvesse recordação dessa criança. Desta forma, o erro de Deus ficou anulado com a única diferença da criança ter ficado um anito mais nova. Dada a experiência de ter observado o desenvolvimento do Rúben, normal, e do antigo Simeão, doente, o desenvolvimento do novo Simeão foi fazendo com que a Maria Zé ganhasse confiança de que a sua criança tinha nascido livre da doença de forma que, quando, aos 4 meses, a tia Júlia apareceu para fazer o defumadouro, não houve qualquer drama. Mais tempo foi passando e nasceu a Raquel e, logo a seguir, a Sara, duas meninas cheias de saúde e de energia, nunca parando quietas. A vida estava muito difícil porque era preciso criar 4 crianças e 2 adultos com os 100€ por mês que o Francisco ganhava a trabalhar como pastor e mais algum rendimento que resultava das ovelhas e da agricultura de sobrevivência que a Maria Zé fazia no campo dentro do muro que lhe tinha sido atribuído e ao Francisco. Mas lá se iam aguentando e, afinal, já só faltava uma criança para cumprir a penitência.
Um dia de Verão nasceu mais um rapaz, o Levi, que seria o último da promessa. A Maria Zé ficou um pouco apreensiva porque a mãe tinha feito o mau presságio de que Deus, por ser brincalhão, ia voltar a atacar exactamente quando ela pensasse que já estava livre. E, realmente, aconteceu o pesadelo que lhe costumava perturbar as noites, no momento em que já via a porta de saída da prisão aberta de par em par, no último momento, quando um pé já quase estava fora, veio uma corrente de ar e a porta, muito lentamente como que levando a noite toda, fechou-se. O Levi chorava de mais e, cada dia que passava, parecia que ficava mais atrasado. O tempo foi andando até que, certo dia, aconteceu o que já estava planeado desde há anos, quando a noite já era fechada, o cão ladrou e bateram à porta “Maria Zé, sou eu, sou a Júlia, a tua tia”. A Maria Zé ainda estava a pé e o seu corpo estremeceu todo. “Ai meu Deus que ela vem para matar o meu Levi, o que é que eu posso fazer? Não lhe posso abrir a porta. Vou-me calar e manter a porta fechada”.
– Abre a porta mulher que fizeste o pacto comigo e com Deus e eu sei que estás ai porque tens a vela acesa. Abre a porta, cumpre a tua palavra, eu disse-te que o pacto era irrevogável e tu disseste perante Deus que o aceitavas. Agora não podes recuar.
A Maria Zé fez um sinal ao Francisco para que se calasse “Vai lá para o quarto que eu trato disto, a Tia Júlia quer matar-nos o Levi”. O Francisco era muito boa pessoa pelo que nem abriu a boca.
– Abre a porta mulher.
A Maria Zé aproximou-se da porta e, em voz baixa para que as crianças não acordassem, disse “Vá-se embora que eu sei que vem cá para matar o meu Levi, vá-se embora que eu amo muito o meu filho. Vá-se embora, desapareça da minha porta e nunca mais cá volte.”
Nesse momento o Francisco tomou parte na conversa, baixinho. Por ter uma fé cega e pretendendo honrar a palavra dada, ficou do lado da Tia Júlia “A tua Tia Júlia só vem cá fazer o defumadouro que nós próprios lhe encomendamos antes de nos casarmos. Não te lembras? Isso não é nada, deixa a mulher entrar que não vai resultar em nada. Temos que ter fé em Deus.”
– Cala-te que tu és um burro, não vês que ela vai matar a nossa criancinha? O Levi tem a doença, cala-te e vai-te deitar. – “Vá-se embora que eu não lhe vou abrir a porta”.
– Deixa-te disso mulher que não pode ser, fizeste o pacto, vais ter que o cumprir, custe o que custar.
– Vá-se embora, não me puxe para o inferno, vá-se embora senão saio aí fora e ainda a mato.
Por causa da discussão, o ladrar do cão foi-se tornando cada vez mais desesperado. A Tia Júlia não sabia mais o que fazer pelo que foi-se embora a falar sozinha “O filho não é meu, não sou eu que tenho que o criar, para que me vou aborrecer? Vou-me embora para a minha casinha onde estava tão bem e de onde nunca deveria ter saído” Lá foi aquele vulto escuro a caminhar no meio da escuridão total apenas iluminada por um pequeno lampião que segurava com a mão mas, pelo caminho, tendo passado pela casa da mãe da Maria Zé, a sua irmã Isabel, decidiu bater-lhe à porta para contar o sucedido.
– Isabel, Isabel, sou eu, a tua irmã Júlia, acorda que venho cá por causa da tua filha Maria Zé.
– Eu ainda estou a pé, já vou – ouviu-se de dentro da casa, um som abafado pelo ladrar do cão – já vou, aguarda só um minuto para eu destrancar a porta – e, realmente, passado um minuto, abriu-se a porta – entra, entra que a noite foi feita para as coisas que não podem andar de dia. Mas que te trás cá? Pareces aflita. Afinal qual é o problema com a minha filha?
– Venho agora de lá. Tinha combinado ir lá fazer o defumadouro ao Levi e ela não me abriu a porta pelo que, antecipo eu, já sabe que a criança nasceu com a doença. Disse mesmo que, se não me viesse embora, me matava. Eu já não tenho idade para me aborrecer com isso pelo que me vim embora.
– Mau, isso é muito mau, estou a ver que ela desistiu de lutar contra a maldição a que estamos condenados. Não, isto não pode ficar assim, nunca podemos desistir, temos que lutar sempre. Estou mesmo a ver que isto é Deus a querer brincar comigo, deu a volta à rapariga porque, quando foram os meus, viu que não me conseguia quebrar pelo que agora vai usar a minha filha para ver se eu tenho a fibra que sempre Lhe anunciei. Não pode ser, não vou quebrar agora, não, não, se dei cabo, quer dizer, resolvi o problema dos meus e eram meus, não é agora que vou deixar que a minha filha ponha tudo a perder. Não, vou eu mesma resolver isto.
– Mas o que podemos fazer?
– Eu vou resolver isto, deixa-me pensar. Como ela tem a porta trancada por dentro vou precisar de arranjar um estratagema para entrar, não vai poder ser à bruta. Já sei, vou buscar a mãe do Francisco que o vai chamar cá para fora e, depois de ele abrir a porta, eu entro.
– Mas ela é muito mais forte do que tu pelo que vai dar luta e tu precisas de liberdade de acção.
– Vou precisar de quem a agarre, já sei, vou chamar as minhas filhas que moram aqui ao lado, criei-as para alguma coisa. Vais também tu e vou ainda chamar as nossas irmãs que moram ali ao fundo da rua. Espera aqui um pouco que vou ver quem arranjo.
A Isabel lá foi apressada pela noite. Primeiro, bateu à porta das filhas que moravam mesmo ali ao lado, 3 mais os maridos e os 13 filhos, “Meninas, preparem-se que precisamos de ir a casa da vossa irmã Maria Zé que está passada da cabeça. Eu ainda preciso ir chamar a mãe do Francisco e venho já.” Depois bateu às portas das irmãs e, finalmente, à porta da mãe do Francisco que ficou muito preocupada e acedeu logo a fazer parte do ajuntamento “Já todas passamos por isso pelo que temos que nos ajudar umas às outras. O meu filho não tem estrutura para aguentar isto”. Passado uma meia hora, a Isabel já estava de volta a casa com as filhas, as irmãs e a mãe do Francisco. Com a Júlia, eram 8 mulheres.

– Meninas, vamos fazer assim, a mãe do Francisco chama o filho enquanto nós nos mantemos em silêncio. Depois, mal ele abra a porta, entramos, trancamos a porta para ele não ir em socorro da mulher e vamos todas directas ao quarto. Vocês amordaçam a Maria Zé enquanto eu retiro a criança do quarto e resolvo o problema. Amanhã de manhã, logo se vê no que deu. Estou a pensar e ainda preciso ir a casa buscar o xaile branco, eu tenho a fé que o xaile branco nos liga a Deus.

Capítulo seguinte (16 - A operação)

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