domingo, 12 de julho de 2015

20 - A carta

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (19 - A resposta)    



20 – A carta
Como a Isabel recuperou completamente, levantou-se e as pessoas foram imediatamente à sua vida. “Mãe, vamos para minha casa para lermos a carta com calma a ver se é mesmo isso e, caso seja, darmos a novidade ao Francisco”. Assim que chegaram a casa, sentaram-se à volta da mesa da sala e a Isabel entregou à filha a carta que levava na mão. “Lê, lê o que diz aí com cuidado para veres que o Jonas te vai ajudar.”
– Vamos então ver se a mãe não fez confusão.
Amiga Isabel, demorei a responder porque a morada que usaste está desactualizada. É que agora vivo em Nova York pelo que demorou algum tempo a receber a carta na minha nova morada.
Nem quero acreditar que já passaram quase 40 anos desde que dei notícias pela última vez e quase 50 desde que deixei a nossa aldeia que tenho bem presente na minha memória. Não passa um único dia em que não pense em vós pelo que fiquei muito triste ao saber que a miséria continua viva por aí e que os do Vale continuam maus. Com o progresso que ouvimos falar que tem acontecido um pouco por toda a Europa, pensei que isso fossem coisas do passado mas vejo que não. Também fico triste por saber das tragédias que vitimaram a Júlia e, mais recentemente, a tua filha que não cheguei a conhecer porque nasceu já eu estava aqui. Apenas posso dizer que a vou ajudar na medida do que me for possível.
A minha vida, no sentido profissional, correu bem mas, na parte familiar, não posso dizer o mesmo. Como sabes, na Holanda aprendi a arte da ourivesaria, conhecimento que, uma vez na América, me permitiu, com a ajuda de um sócio, estabelecer-me e desenvolver uma oficina que hoje é muito conceituada. Tenho tido muito sucesso a ponto de ter actualmente 18 pessoas a trabalhar comigo e que não chegam para as encomendas. Mas em termos familiares, as coisas correram-me mal. Casei-me com uma americana e os costumes daqui são diferentes dos dai. Primeiro, tive 2 filhos mas a minha mulher, alegando que eu trabalhava de mais, deixou-me e levou as crianças com ela. Depois, apesar de ter mantido contacto permanente com eles, já não tenho contacto com as minhas crianças há vários anos já nem sabendo onde vivem.
A minha idade vai avançando e, como os meus filhos não têm qualquer interesse no meu negócio, estava a pensar desfazer-me dele mas, agora que recebi a tua carta, como que me sinto renascido. Estou a ver o teu neto como a pessoa de confiança que eu preciso a trabalhar aqui a meu lado, uma pessoa que foi criada e educada como eu. Por isso, preciso imediatamente desse jovem mas ele, antes de vir para cá, precisa aprender a arte da ourivesaria.
– Mas mãe, como é que o Rúben vai poder aprender a arte da ourivesaria se não temos por cá ninguém que o possa ensinar? Isto é uma forma educada de dizer que não o quer lá.
– Calma filhinha, lê a carta até ao fim porque não nos podemos esquecer que o teu tio mandou o dinheiro.
O vale postal de 3250€ que te envio é para materializar as coisas. Primeiro, mando 250€ para ti e para o meu irmão que se sacrificou para que eu pudesse ir para Amesterdão e como agradecimento por me teres chegado estas informações mesmo que tristes. Depois, mando 1000€ para a tua irmã Júlia para ver se consegue melhorar a sua vida. Finalmente, mando 2000€ para a tua filha para que possa fazer face às despesas enquanto o Francisco não conseguir trabalhar e para mandar o Rúben até Amesterdão onde vai ser aprendiz na mesma oficina onde eu trabalhei.
Agora as instruções para a viagem do Rúben. Tem de ir de comboio até à Estação Central de Amesterdão. Uma vez lá, só tem que procurar pela oficina do Mestre Jacob que é muito conhecida e cuja oficina fica a menos de 1200m da estação de comboios. Como o Rúben não sabe holandês, o melhor será escrever esta direcção num papel, 
"Meester goudsmid Jacob, Jodenbreestraat", 
de forma que a possa mostrar às pessoas. Precisa apenas de levar a roupa do corpo pois, uma vez lá, eu já tratei de tudo, da roupa, do alojamento e da alimentação que são por minha conta. A criança vai ficar dois ou três anos a aprender e, quando estiver preparada, eu pago-lhe a viagem para vir ter comigo e, depois, ficará a viver em minha casa como se fosse meu filho.
Finalmente, aqui estamos sempre a dizer que vivemos em crise mas, mesmo assim, os salários são cinco ou seis vezes o valor que referiste como sendo o rendimento do Francisco. Um homem sem saber fazer nada de especial ganha facilmente 150€ por semana e uma mulher 100€ por semana. Como tenho as pessoas da nossa aldeia no coração e porque temos falta de pessoas sérias e de confiança, estive a falar na confraria e estamos disponíveis para receber 30 casais jovens que sejam trabalhadores e tementes a Deus. Bem sei que a viagem é bastante cara para os rendimentos dai mas é um investimento que pode ser rapidamente recuperado.
Espero receber em breve mais notícias tuas, dos meus irmãos, da Júlia e das demais pessoas dai. Despeço-me agora com muita amizade e carinho.
Do teu cunhado Jonas.
– Terminou.
– Filha, as notícias são muito boas. Mas confesso-te agora que, apesar de todas as noites pedir a Deus para que te ajudasse, cheguei a pensar que nunca obteria resposta não por o Jonas não te querer ajudar mas por já estar morto. É que foram mais de 30 anos sem notícias. E com o passar dos dias, a minha esperança também foi diminuindo até que, hoje, quando passei por aqui para te pedir que me acompanhasses, cheguei a pensar que era apenas a minha carta devolvida a dizer que a pessoa era desconhecida. Mas agora o que interessa é que segui o ensinamento da minha mãe que dizia “Quando as coisas parecem impossíveis, se tentares e falhares não vem muito mal ao mundo mas também pode acontecer um milagre, o certo é que se não tentares, nunca conseguirás.” E consegui. , mesmo contra toda a esperança, tentei e consegui o que parecia impossível, consegui muito mais ajuda do que imaginei no melhor dos meus sonhos.
– Sim mãe, mas não lhe parece mal eu mandar o Rúben como quem manda um gato? No fundo estou a vendê-lo por 2000€.
– Não filha, não penses nisso, o Jonas vai tratar a criança como se fosse filho dele e não te podes esquecer que a alternativa era deixá-lo morrer de fome. Mesmo que o Jonas o reduzisse à escravatura, seria sempre melhor do que ficar por aqui a morrer de fome e ainda vais salvar as tuas outras crianças da morte. E quem sabe se, daqui a 3 ou 4 anos, ele não chama os irmãos para junto dele.

– Minha mãe, vendo as coisas dessa forma, temos que ver aqui um milagre semelhante à abertura das águas do Mar Vermelho quando o povo judeu fugia da morte certa no Egipto.

Capítulo seguinte (21 - O dinheiro) 

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