quarta-feira, 1 de julho de 2015

17 - O ataque

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (16 - A operação)    





17 – O ataque
Depois da morte do Levi, apesar de a Maria Zé alegar que não teve nada a ver com a sua morte, que a morte foi causada por alguém que ela não conseguiu identificar, que lutou para que a criança continuasse viva, o padre Augusto não aceitou os argumentos alegando que foi ela a beneficiada. A Maria Zé contra-argumentou que estava muito triste e desgostosa o que provava que não tinha sido beneficiada em nada, antes pelo contrário.
– Mas – disse o Padre Augusto – não foste tu que fizeste um contrato para que essa criança não chegasse a existir? Não foste tu que pediste à Júlia para que fizesse tudo o que estivesse à sua mão para evitar teres que criar essa criança? Se fizeste isso, como podes dizer agora que estás muito triste quando a sua morte foi mais que o materializar desse pacto? És tu a única beneficiada e, por isso, vais ter que redimir essa tua falta aos Mandamentos. Em nome do Espírito Santo terás que ter mais 4 filhos para provares a Deus que mereces a salvação.
– Ai meu Deus como é que eu vou poder criar mais 4 crianças quando já me vejo à rasca para criar as 4 que tenho.
– Tem que ser, Deus há-de ajudar-te a criá-los. Pensas que te custa a criar os que tens mas imagina que Deus manda uma desgraça por aí, uma seca, um acidente ou o tifo? Tens que ter pensamento positivo e deixar nas mãos de Deus.
– Bem, se tem que ser, assim será. Se tenho que redimir essa morte, assim o farei.
Passado uns meses a Maria Zé engravidou novamente, já era a sua sétima gravidez “Seja o que Deus quiser” mas foi então que aconteceu a tragédia. Como a mulher estava grávida, foi necessário o Francisco ir, depois de retornar com o seu rebanho, ao monte buscar uma carrada de feno para ir juntando para o Inverno. Como já estava quase noite e o campo era próximo do Vale, à vinda para casa foi atacado por uns bandoleiros. Aparentemente parecia um incidente sem qualquer perigo pois havia muitas vizinhos por perto. Assim que viu os bandoleiros, gritou e apareceram logo muitas pessoas para o socorrer. O azar é que, enquanto fugiam, os bois espantaram-se, derrubaram o Francisco e passaram com o carro por cima dele tendo uma roda passado mesmo por cima de uma das perna o que causou uma fractura exposta que começou logo a perder sangue. Quando, decorridos poucos minutos, o socorro chegou, as pessoas viram logo a gravidade do ferimento pelo que fizeram ali mesmo um garrote e alguém foi a correr pedir ajuda ao Dr. Acácio. Meteram o Francisco numa padiola e levaram-no para casa onde o Dr. Acácio já o esperava. O Dr. Acácio olhou e disse logo “Isto está feio, a hemorragia é grande pelo que, antes de tirar o garrote, isto tem que ser visto com cuidado. Pousem a padiola aqui mesmo em cima da mesa”. Tirando a tesoura da sua mala, cortou o pano das calças e viu que a perna tinha uma fractura total dos dois ossos e exposta “Isto está feio, alguém que vá rápido a minha casa e que peça à minha mulher a mala de cirurgia e duas injecções de morfina, ponham já duas panelas cheia de água ao lume, tragam-me água e sabão, rápido que não há tempo a perder, tragam-me um lençol e uma toalha branca que eu vou ver o que posso salvar.” Depois aliviou ligeiramente o garrote para ver a extensão da hemorragia “Isto é grave” mas vendo que a Maria Zé estava a ouvir continuou “Mas não te preocupes que não é nada que não tenha concerto. Vai ser preciso fazer um cortezito na perna mas o Francisco vai recuperar e, dentro de uns dias, já estará como bom.”
O Dr. Acácio pensou que o melhor seria ter uma segunda opinião mas, ali no monte, não tinha a quem a pedir ajuda pelo que tinha que avançar sozinho.
– Está bem, chamem uma parteira me more aqui de perto e escolham ai uns homens de coragem para me ajudarem na operação. Seis homens que o segurem enquanto eu faço a operação. Tragam a água e o sabão para lavar a mesa e levem esta tralha toda lá para fora.
Veio a água e o sabão e o Dr. Acácio lavou a mesa com cuidado e, depois, cobriu-a com o lençol que lhe deram. “Tragam velas, onde estão as velas, tragam velas que já não se vê nada”. Olhando para os homens que se voluntariaram perguntou “Acham-se com coragem para segurar o Francisco enquanto eu lhe corto a perna? Vejam lá, olhem que isto é pior que amanhar um porco, não me deixem ficar mal. ” Como acenaram com a cabeça em sinal afirmativo, continuou “Venham então, vamos pegar no homem e vamos po-lo aqui, em cima da mesa. Quando a água estiver a ferver, tragam cá uma das panelas.”
Até agora, o Francisco sofreu em silêncio mas, quando pegaram nele, voltou a gritar “Cuidado com a perna que me dói muito”. Trouxeram o Francisco e deitaram-no sobre na mesa.
No entretanto, chegaram com a mala de cirurgia e também veio a parteira que já era uma velha conhecida do Dr. Acácio. O Dr. Acácio abriu a mala e tirou uma panela de cobre com o fundo cheio de furos que tinha dentro as ferramentas de cirurgia, uma faca com o gume redondo, uma pedra de afiar, um serrote, pinças, agulhas para cozer e linha de sutura. “Sr. Parteira esterilize estes instrumentos, leve-os onde está a panela a ferver e esterilize-os durante 5 minutos.” A parteira pegou na panela de cobre e foi à cozinha onde a colocou por cima da panela que já tinha a água a ferver “Agora são precisos 5 minutos para que o vapor mate a bicharada toda”. Enquanto os instrumentos estavam ao lume, o Dr. Acácio tirou a camisa, lavou os braços com água e sabão e, depois de os secar com uma toalha que tinha na sua mala, vestiu uma bata branca. O Dr. Acácio meteu uma bacia de esmalte por baixo da ferida e lavou toda a zona envolvente com água e sabão. Depois, começou a planear a operação “É uma fractura exposta com esmagamento pelo que a perna tem mesmo que ser cortada mas é aqui pouco acima do tornozelo pelo que vai ficar bem, isto não vai custar nada, daqui a uns dias já vai poder andar, primeiro de muletas e depois com um prótese.” Pegou na seringa e deu uma injecção de morfina “Sabes Francisco, é uma pequena picada mas que, daqui a uns minutos, vai fazer a dor passar. Quando deixares de sentir a dor, avisa-me para eu poder começar a explorar a ferida”.
Entretanto, passaram os 5 minutos e a parteira chegou com a panela furada que continha os instrumentos “Os instrumentos estão aqui Sr. Dr.” e, depois, virando-se para os homens, e disse “Você segure a cabeça do paciente, vocês ai os braços, você a perna boa. Preciso ainda de vocês os 2 para segurar aqui no joelho, têm esta correia para vos ajudar. Atenção que o Sr. Dr. vai começar a exploração da ferida.”
O Dr. Acácio abriu a panela de cobre e aguardou um bocadinho para que os instrumentos arrefecessem. Depois, tirou a faca com a lamina em forma de meia folha e passou-a na pedra de afiar. Pousou a pedra novamente dentro da panela de cobre e fez um sinal ao homens para que segurassem o Francisco “Vou começar a exploração”. Começou então a cortar a carne que estava esmagada, cortava e lavava com água que tirava da panela que já estava tépida. Como os ossos estavam completamente partidos, o pé saiu sem que fosse necessário usar o serrote. “Sr. Enfermeira, está a ver? Ainda vai ser preciso cortar aqui estes bicos para melhorar o calo”, retirou o serrote da panela e começou a serrar “Francisco, isto agora vai doer um bocadinho mas tens que aguentar, isto está a correr muito bem.” Quando começou a serrava o Francisco gritou um pouco mas aguentou com coragem. “Pronto, já está, agora é só suturar as artérias e as veias e fechar tudo”.
Fora da casa juntou-se uma pequena multidão à espera de novidades, estavam lá a Maria Zé e as irmãs, a mãe e as tias, os cunhados, tios, sobrinhos e vizinhos. “Meu Deus, mais uma tragédia, parece mesmo que fomos abandonados por Deus. Esperemos que tudo corra pelo melhor” diziam as pessoas. Mas também se ouvia “O que irá ser destas crianças e ainda está à espera de mais uma” a que outras respondiam com “Não podemos perder a fé”.

Passado pouco tempo, o Dr. Acácio apareceu à porta “Tenho boas notícias, correu tudo bem. Agora o Francisco vai ficar em repouso e amanhã de manhã eu venho para ver a evolução e trocar o penso. Daqui a dois ou três dias tiro o dreno e fecho a ferida. Dada a gravidade da ferida, não podia ter corrido melhor. Tive que cortar a perna um pouco acima do tornozelo mas nada mais podia ser feito. Daqui a um mês ou dois já o vamos ver a andar por ai. Hoje o Francisco vai ter que ficar sem comer, só um pouco de água tépida.”

Capítulo seguinte (18 - O pedido)

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