domingo, 19 de julho de 2015

22 - O estrangeiro

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (21 - O dinheiro)    


22 – O estrangeiro
A comissão dos homens bons reuniu-se para identificar e tentar resolver os problemas  que tinham que ser ultrapassados para que 30 casais pudessem rumar à América. Tendo a certeza de que haveria muito mais candidatos, um problema difícil seria seleccionar quem poderiam seguir viagem e quem continuaria condenado à miséria. Mas este problema nem chegou a ser discutido porque não haveria forma de arranjar o dinheiro necessário para pagar a viagem. O Sr. Dr. Acácio disse que, tendo feito uma pequena investigação, uma viagem para 60 pessoa da aldeia até à América não ficaria por menos de 100000€ e, disseram rapidamente todas as pessoas, não havia onde arranjar tal soma de dinheiro.
Disse o Sr. Costa “não é totalmente impossível conseguirmos os 10000€, se todos pagarem dá pouco mais de 150€ por família, é uma soma importante mas não é impossível mas têm que contribuir todos.”
– Sim, mas não há muita agente que não vai querer contribuir porque são contra a partida dos jovens. O melhor é irmos de casa em casa a ver quantas pessoas estão disponíveis para participar no projecto e no final, se não puderem ir 30 casais, vão menos, nem que sejam só 5 casais, é um princípio e esses podem vir a ajudar que outros possam ir, não nos podemos dar já como derrotados.
E foi-se toda a gente embora totalmente desanimada.
O dia nasceu e as pessoas, como todos os dias faziam, ficaram a trabalhar nas oficinas ou saíram da aldeia para trabalhar, umas no Vale para trabalhar à jorna, outras com os rebanhos pelo monte fora e ainda outras a recolher lenha e a tratar dos campos que ficavam fora de muros. As conversas foram todos em volta da questão da viagem e do dinheiro que seria necessário e o máximo que se conseguiria seria que os pais dos candidatos contribuíssem com algum dinheiros, uns 200€. Fazendo contas, o máximo que se conseguiria seriam 10mil€ o que não daria para nada.
A manhã foi avançando e, eram umas onze horas da manhã, os porteiros da aldeia observaram que uma pessoa subia pelo caminho que ligava a aldeia do Vale à aldeia do Monte. Coisa nunca vista pois, tirando o Dr. Acácio, os três polícias e, de longe a longe, o procurador do Arquiduque, nunca nenhum estranho tinha vindo visitar a aldeia do Monte. Mais estranho ainda era a pessoa estar toda vestida de branco quando no Monte todas as pessoas vestiam de preto. Foi-se aproximando e aqueles olhos todos dos porteiros mais das pessoas que foram avistando o forasteiro e outras que foram sendo chamadas à atenção foram-se focando naquela figura com uns 60 anos. Era mesmo uma coisa nunca vista, trazia chapéu, casaco, camisa, calças, meias e até sapatos, tudo branco. Quando chegou à porta dirigiu-se à pequena multidão que já lá se tinha juntado, mais de 20 pessoas, e disse com um sotaque muito pronunciado “Boas dias, meu nome ser Newman Dessilva e vir mandado do América por Sr. Jonas, conhecer senhor neste terra? Ele mandou eu tratar problemas de viagem.”
– Bom dia – disse um dos porteiros – nós observamos que o Sr. é da aldeia do Vale, o que é estranho, porque nunca tivemos uma visita vinda de lá e para mais à luz do dia. Mais estranho ainda é a sua pronuncia. É que não estamos a perceber bem o que pretende dizer.
– Não, não, não ser, eu não ser do aldeia do Vale, eu não ser, eu vir por causa de viagem, eu ser do América, eu vir do América para tratar de coisas do viagem de jovens para o América. Já ouviu falar do Sr. Jonas que foi no América e agora querer jovens no América?
– Ai é um Sr. da América, ai, não estávamos a perceber, pensávamos que era alguém do Vale que nos vinha cobrar um imposto qualquer, assim a coisa é outra, entre, entre, vamos já para casa do Sr. Costa que é quem está a tratar dessas coisas, vamos lá que vai ser uma surpresa agradável. O Sr. é muito bem vindo. Acompanhe-me Sr., Sr. como disse que era mesmo o seu nome?
– Newman de Silva
– Sr. ... Silva, acompanhe-me que a casa do Sr. Costa fica ali no meio da aldeia.
– Não, não, ser Dessilva, meu nome ser Dessilva e não ser Silva.
– Sim , sim, Sr. Dessilva, desculpe o engano que pensei que fosse Silva. É que nunca tinha ouvido tal nome. Nós temos aqui parecido mas é Silva.
– Não, não, eu ser Dessilva, tudo junto, é nome do América, nome de meu pai, Dessilva.
Aqueles dois homens atravessaram os campos que rodeavam a aldeia, uns 750 m, e entraram na aldeia. Mais uns metros e já estavam à porta do Sr. Costa. Bateram e foi a Sr.a Celeste, empregada ocasional da casa, que abriu a porta. Bom dia Sr.s, o que pretendem?
– Bom dia Sr.a Celeste, trago aqui este Sr. que diz vir da América mandado pelo Sr. Jonas para tratar da viagem dos jovens para lá. Como o Sr. Costa é o presidente da confraria, pensei que o melhor seria traze-lo cá. O Sr. Costa está por aí para poder falar com este senhor?
– Mas Sr. Porteiro, se o Sr. veio da América, o Sr. Costa não vai conseguir falar com ele porque não sabe falar americano.
– Inglês senhorita, inglês, em América falar inglês mas eu saber falar língua de Sr. Costa, está a perceber eu? Eu saber falar, mal mas saber falar – disse o americano.
– Aiiiih, sabe falar a nossa língua, mas como raio percebe o que a gente diz? Será que também falamos esse tal inglês sem o sabermos? – e, reclinando a cabeça para trás, soltou uma gargalhada.
– Não, não, meus bisavós ser destas terras, eles falar língua daqui. Eu aprender mal mas aprender qualquer coisinho no eles. Pode chamar no Sr. Costa que eu perceber na tudo.
– Mas eram daqui de onde? Se calhar daqui mesmo, se calhar eram dos nossos – disse a Sr. Celeste a tentar descobrir alguma coisa da história daquele homem não fosse apenas um farsante que vinha para roubar o Sr. Costa.
– Não saber, eu não conhecer meus bisavós, meus pais não saber terra de bisavós. Mas saber língua, mal, pouco, mas saber coisinho pouco eu o aprender pequenino.
– Bem, daqui da aldeia não deveriam ser senão a gente sabia. O Sr. entre e sente-se aqui que vou chamar o Sr. Costa. E o Sr. Porteiro também se sente e aguarde um pouquinho porque este homem pode ser um farsante que veio cá apenas para roubar o Sr. Costa. Por favor, aguarde um bocadinho para tomar conta dele, quem diria que por esse mundo fora haveria homens que se vestissem de branco, isto é roupa para os anjinhos. Valha-nos Deus que o homem ainda é de Sodoma.
A Sr.a Celeste foi lá dentro à oficina procurar o Sr. Costa que estava entretido nos seus afazeres de industrial. “Sr. Costa, está ali um Sr. todo vestido de branco que diz vir da América enviado pelo Sr. Jonas, o homem já tem uma idadesita mas pode ser um farçante”.
– Vamos lá então ver quem é esse homem.
Lá foram, uma coisa de um ou dois minutos, e já estavam na presença do homem de branco “Bom dia, então o Sr. veio da América mandado pelo Sr. Jonas. Mas o Sr. Jonas escreveu uma carta e não referiu que o ia enviar!”
– Meu nome ser Newman Dessilva, como vai confundir, digo já Dessilva, tudo junto. Realmente não, Jonas não escrever porque decidir de vir ser depois de carta partir. Eu ser sócio de Jonas em trabalho, Jonas trabalhar em oficina, em produção, eu trabalhar em loja, em vender, em gerir. Jonas mandar carta e dinheiro e depois pensar e me mandar ajudar gerir viagem.
– Mas como é que o Sr. nos vai poder ajudar? Como deve saber o principal problema vai ser arranjar dinheiro para pagar a viagem, vão ser precisos pelo menos 100000€, e não estou a ver como nos pode ajudar nisto.
– Exactamente. Eu vir no resolver dinheiro na viagem, eu resolver, eu saber resolver, ter investidores em América que resolve problema.
– Se é assim, realmente resolve os nossos problemas mas para isso teria que trazer malas cheias de notas e não o estou a ver acompanhado por essas malas – disse o Sr. Costa em tom jocoso pois não acreditava ser possível aquele homem arranjar o dinheiro.
– Não preocupar, eu resolver tudo, e ter outra solução além do eu? Ter outro pessoa que resolver problema do dinheiro?
– Bem, realmente não, entre o Sr. que diz resolver o problema e outro qualquer que diz não ser capaz de o resolver, realmente, tenho que lhe dar o benefício da dúvida. Mas como vai resolver esse problema?
– Já estar a começar a resolver mas primeiro ser preciso resolver problema de Dessilva, eu precisar casa no viver no aldeia. Eu precisar um sítio para viver aqui no aldeia que eu não querer viver no Vale.
– Mas eu não sei se é possível um americano passar aqui a noite. É que o nosso foral não fala na vinda de pessoas de fora.
– Eu já falar ontem com procurador de Arquiduque, eu já pagar ontem os 10 g de ouro, dizer eu poder ficar um ano aqui. Disse coisa que não perceber, disse “Não contar na medida do muro” mas dizer que eu poder ficar. Agora é preciso casa para eu estar e ir buscar baús na estação de transportes. Estar lá 10 baús coisas meu. Precisar homens e carro ir buscar coisas meu.
– Um ano, vai planeia ficar um ano aqui em cima? Estou a ver que o Sr. Dessilva vem com boa intenção, é uma pessoa séria que vem mesmo para nos ajudar pelo que vai ficar hospedado em minha casa. Tenho um quarto vazio que lhe serve às mil maravilhas.
Virando-se o Sr. Costa para a Sr.a Celeste.
– A Sr.a veja quem há-de ir ao Vale buscar os pertences do Sr. Dessilva. Chame ai uma carroça que possa ir imediatamente lá baixo buscar os pertences deste senhor e, depois, trate do quarto das visitas para o nosso hóspede.
Dirigindo-se depois ao americano

– Nós ainda não tínhamos dado o problema da viagem para a América como impossível mas estamos muito desanimados principalmente porque não temos onde ir buscar o dinheiro. Além do mais, nem fazemos ideia como se pode fazer tal viagem, o caminho a tomar, a papelada a tratar. Se o Sr. Dessilva tiver mesmo vindo para resolver os problemas da viagem, só pode ter sido um anjo enviado do Céu, está-me a perceber? É que estamos completamente desanimados e sem saber o que fazer.

Capítulo seguinte (23 - O passeio)

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