domingo, 14 de agosto de 2011

Cinco questões de um comentarista


Estive a ler um comentário com umas questões muito pertinentes.
Se os amigos me colocarem dúvidas, torna-se mais fácil eu encaminhar o meu pensamento para as vossas dificuldades. Obrigado.

Questão 1. Antes, no tempo do escudo, as nossas notas perante o endividamento externo iam para o Banco Central de Portugal. Hoje vão para o estrangeiro. Que diferença faz?
A liquidez diminui menos por irem para o Banco Central de Portugal?

Resposta 1: Não era no endividamento porque ninguém emprestava dinheiro em escudos. Quando alguém queria divisas entregava as notas de Escudos ao Banco de Portugal (que as trocava por Divisas) mas não ficava, necessáriamente, lá. Vendo que a quantidade de escudos em circulação tinha diminuido, o BC re-injectava essas notas em circulação pela compra de Titulos do Tesouro aos bancos (operações de Open Market) o que levava à diminuição da taxa de desconto (a extinta LISBOR). Quando a taxa de inflação estava abaixo do objectivo, o BP injectava mais moeda em circulação e, no caso contrário, o BP retirava moeda de circulação (subia a LISBOR). Este mecanismo de esterilização é independente da quantidade de reservas de divisas que eram controladas pela cotação do Escudo.

Questão 2. A diminuição da liquidez com o euro é mais rápida porque? Se sim, não deveria facilitar o ajustamento pela via da deflação?

Resposta 2: Com os Euros, o BCE tem em atenção no nível médio de liquidez (inflação) em toda a zona euro pelo que não consegue controlar a liquidez num país periférico e de pequena dimensão como Portugal. O BCE não pode injectar moeda só em Portugal porque ela caminha para outros sitios, fazendo aumentar a inflação média da zona euro. Isso violaria o seu mandato de estabilidade dos preços.
Realmente a quebra de liquidez induz uma diminuição dos preços. Mas os preços diminuindo, os salários reais (dados pelos salários nominais a dividir pelo nível de preços) aumenta, levando as empresas à falência.
Como os salários nominais não podem descer e o mercado de trabalho não é flexivel, a diminuição da liquidez leva ao desequilíbrio interno da economia: o desemprego explode.

Questão 3. "Guardar moeda é, em termos económicos, igual a emprestar as nossas poupanças porque o Banco Central (ver, cambista) acomoda a minha poupança emitindo exactamente a mesma quantidade de nova moeda." Como funciona isto?

Resposta 3: O BC mede, via taxa de inflação, a quantidade de moeda em circulação. O BC tem várias variáveis que observa todos os dias (compras de aço de construção, cimento, adubos, portagens nas auto-estradas, chamadas telefónicas, consumo de electricidade, EURIBOR, etc.) e com isso constrói uma estimativa das necessidades de liquidez da economia. Observando uma diminuição da liquidez, injecta moeda e, caso contrário, retira moeda.
A liquidez aumenta com a quantidade de moeda em circulação e diminui com o entesouramento dos particulares (diminuição da velocidade média de circulação)

Questão 4. Não poderia fazer uma discussão/ensaio sobre o interesse e as vantagens de Portugal em ter uma moeda forte como o euro ou mais fraca como o escudo. Não é esta uma das questões mais importantes?

Resposta 4: A moeda ser forte ou fraca tem apenas a ver com a taxa de inflação do país que tem essa moeda. Se houver inflação, a moeda não pode ser usada como reserva de valor (porque desvaloriza) pelo que se diz fraca.
Portugal pode ter Escudo e ser uma moeda forte. Mas para se construir uma reputação de que não vai haver inflação, é preciso um historial de muitas décadas com inflação baixa.
O Euro é uma moeda forte porque a Alemanha e a Fraça dão-lhe essa reputação: nos últimos 50 anos, estes países tiveram uma taxa de inflação baixa e, se perguntarmos na rua, a grande maioria dos povos destes países é a favor desta política monetária.
Quantas pessoas importantes portuguesas aparecem na televisão portuguesa a pedir maior taxa de inflação? na Almanha não existe ninguém que o afirme.

Qual o interesse de uma moeda forte?
Em termos teóricos, não existem vantagens nem inconvenientes em ter uma moeda forte. O importante é que a taxa de inflação seja constante. Se variar, os investimentos de longo prazo passam a ter um risco acrescido pelo que há uma tendência para que não se realizem.
A evidencia empirica diz que os Estados que permitem uma taxa de inflação elevada têm menos rigor em manter essa taxa de inflação estável. Por isso, os agentes económicos localizados em Estados com taxa de inflação mais elevada têm que pagar taxas de juro reais mais elevadas pelo que o investimento e o crescimento económico fica menor.

Os USA, onde as pessoas têm um poder de compra 50% superior ao da União Europeia, desde a independencia em 1776 que têm um Historial de inflação baixa. Por exemplo, nos últimos 100 anos (em que travaram 2 guerras mundiais), a taxa de inflação média foi de 3.25%/ano e nos últimos últimos 25 anos foi 2.93%/ano.
O USDólar é a moeda de referência em todo o mundo porque mais nenhum país do mundo tem um historial de inflação baixa minimamente comparável.

Questão 5. Relativamente ao endividamento do cambista, é possível os Bancos centrais endividarem-se de qualquer maneira? Não são assistidos ou acompanhados por nenhuma entidade de supervisão?

Resposta 5: Os países são livres de conduzir a politica monetária que quizerem. Quando o BC conduz cambios flexiveis desvalorizando quando há defice corrente e valorizando quando há superávite, a situação é estável, sendo a moeda convertível. Isto funciona mesmo em países muito pobres.
Um regime de cambios flexiveis bem governado precisa de reservas de divisas pelo menos na ordem do valor das importações de 6 meses.
Por exemplo, Moçambique importa 4.8MM€ por ano pelo que deve ter pelo menso 2.4MM$ em divisas.
Como moçambique paga uma taxa de juro elevada (>10%) estas divisas seriam um encargo grande. Então, se o BCM se comportar adequadamente, o FMI empresta este dinheiro sem cobrar juros.
Depois, o FMI dá aconselhamento técnico quanto às políticas monetárias e de câmbios.

A generalidade dos governantes pensam que o trabalho do BC é uma brincadeira. Se o broquista more que é economista pensa isto, imagine como será dificil convencer o Chaves de que a governação do BC é uma ciência.  Nestes caso de má governação, o BC fica sem reservas, a moeda deixa de ser convertível e as reservas do BC têm que ser compradas.

Pedro Cosme Costa Vieira

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